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PRODUTOS ALIMENTARES EXPOSTOS AO LIXO NOS MERCADOS DA CAPITAL

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A gestão dos mercados de Luanda continua a levantar preocupações devido à falta de higiene e condições precárias para comerciantes e consumidores. Os produtos alimentares, especialmente os perecíveis, estão expostos ao lixo, representando uma ameaça à saúde pública, enquanto as políticas governamentais do partido no Poder (MPLA) há 50 anos não conseguem lidar com o problema de forma eficaz.

Os luandenses denunciam o lixo nos mercados formais e informais, alimentos são vendidos no meio ao lixo, agravando os riscos de doenças. Esperança Joaquina, vendedora no mercado do Kicolo, lamenta e aponta o lixo como causa de graves problemas de saúde pública.

“As moscas alimentam-se dos produtos que vendemos. Ainda assim, somos obrigadas a pagar entre 500 e 800 kwanzas ou até mesmo 1000 kwanzas diários aos fiscais, sem que haja qualquer melhoria nas condições de higiene. Não temos outro lugar para vender e é daqui que tiro o sustento para os meus cinco filhos,” salientou.

Além da falta de condições sanitárias, Esperança Joaquina destaca a importância do seu negócio: “A minha casa e a educação dos meus filhos vêm deste mercado. É o único local onde posso ganhar a vida, mas as condições são extremamente precárias”.

Segundo os luandenses, a saudade do Roque Santeiro, enquanto estava localizado no município Sambizanga e foi encerrado em 2011, ficou conhecido como o maior mercado a céu aberto da África, estendendo-se por uma área de um quilómetro de comprimento por 500 metros de largura (equivalente a cinco campos de futebol) onde comerciantes vendiam diversos tipos de mercadorias, de alimentos a computadores, em barracas de zinco.

Muitos consideram até agora a decisão de encerramento do antigo mercado como um erro do executivo angolano que prejudicou a economia informal e deixou milhares de pessoas em situação de vulnerabilidade. Um comerciante anónimo, residente no bairro da Lixeira, criticou a falta de visão do governo:

“O fechamento do Roque Santeiro deixou um vazio enorme até ao momento. O mercado movimentava mais de um milhão de dólares por dia, e hoje, o que resta é uma eterna saudade pela pujança financeira e pela capacidade de empregos que gerava”.

Gabriela dos Santos, empresária que iniciou a sua trajectória como vendedora no Roque Santeiro, também critica a falta de soluções adequadas após o encerramento do mercado: “O governo criou o Mercado do Panguila para os antigos vendedores do Roque Santeiro, mas a distância e a falta de clientes tornaram o local inviável. Muitos vendedores preferem enfrentar a informalidade e a corrupção dos fiscais para continuarem a trabalhar nos mercados locais”.

Acrescenta que o lixo acumulado nos mercados da capital de Angola é uma queixa recorrente entre os vendedores e moradores. Isabel Miguel, outra vendedora, relata que, além da falta de condições para o comércio, os mercados são usados como balneários públicos.

“Os seguranças cobram para as pessoas entrarem à noite para defecar nas áreas dos mercados. É revoltante ver que, de manhã, encontramos fezes nos locais onde deveríamos vender. Essa falta de organização e higiene está a destruir os nossos negócios,” denuncia.

Gabriela dos Santos vai além, questionando a competência do governo para gerir os mercados: “Se há lixo por toda a cidade, o que podemos esperar dos mercados? As administrações locais não fazem o trabalho de limpeza necessário, e nós, comerciantes, sofremos as consequências”.

O docente universitário e comerciante Fernando Pascoal acredita que esses problemas são reflexos da má gestão do país. Para ele, a estratégia de “Trabalhar Mais e Comunicar Melhor”, defendida pelo governo do partido no poder há 50, não está a surtir efeito.

“O executivo de João Lourenço não está a conseguir administrar o país. O lixo nos mercados é apenas um sintoma da extrema miséria em que o povo vive. O governo continua a não investir no ser humano, nas áreas essenciais como saúde, educação, habitação, saneamento básico e acesso à água e energia,” afirma.

Fernando Pascoal ressalta que, apesar das condições adversas, muitos comerciantes continuam a operar nos mercados, buscando uma forma de sobreviver. “É triste, mas muitos encontraram estabilidade financeira mesmo vendendo em condições deploráveis, em meio ao lixo e à falta de higiene. Isso reflecte o espírito de sobrevivência em meio à miséria que o povo angolano carrega.”

A conclusão dos luandenses entrevistados pelo Jornal Folha 8, apontam a falta de infra-estrutura e políticas públicas eficazes para lidar com o comércio informal em Luanda que continua a prejudicar os comerciantes e os moradores da cidade. O lixo nos mercados, a corrupção dos fiscais e a ausência de alternativas para os vendedores são os muitos desafios enfrentados diariamente.

As vendedoras e empresários clamam por uma solução que inclua a criação de mercados organizados, limpos e seguros, onde possam trabalhar sem colocar em risco a saúde dos consumidores e suas próprias condições de vida. Para muitos, como Gabriela dos Santos e Isabel Miguel, a sobrevivência depende da venda informal, mas a falta de higiene e a desordem nos mercados representam um obstáculo que o governo precisa enfrentar com urgência. F8

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