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OS HÉROIS ESQUECIDOS DA LUTA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL

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A maioria dos antigos combatentes vive em condições de pobreza extrema, marcadas por dificuldades financeiras, falta de habitação condigna e pensões de irrisorias, com valores na ordem de 57 mil kwanzas, contra os anteriores 23.550 kwanzas. Como se não bastasse, pagos com atrasos

Os ex.- soldados angolanos que combateram contra o colonialismo português e que também se envolveram na guerra civil que terminou em 2002 enfrentam hoje sérias dificuldades: os baixos subsídios que recebem não chegam para as despesas diárias. Muitos relatam sentir-se abandonados pelo Estado, recorrendo a trabalhos precários, ou ao apoio familiar para sobreviver, décadas após a luta pela independência. Sublinham ainda que, para além das questões monetárias, há outro problema por resolver: nem todos os que contribuíram para a ‘dipanda’ e reconciliação nacional, estão a ser devidamente valorizados.

A LUTA

O feriado assinalado na quarta-feira, 4, é considerado um marco importante no combate ao colonialismo português em África. Mas a data não reúne consenso entre o MPLA e a FNLA, dois dos três movimentos que lutaram pela libertação de Angola. O MPLA diz esta é a data do início da luta armada, mas a FNLA diz que foi a 15 de Março de 1961. Polémicas à parte, em comum todos têm uma questão: a valorização dos ex.- militares. 65 anos depois do início da luta armada, muitos antigos combatentes numa situação deplorável.

VIÚVA ESQUECIDA

Quarta-feira, 4 de Fevereiro. Era feriado. Celebrava-se o 65 aniversário do início da luta armada de libertação nacional. E este era precisamente o assunto que nos levava ao bairro Adriano Moreira, ali pelas bandas da Cuca, onde fomos visitar a viúva do nacionalista do 4 de Fevereiro Augusto Kiala Bengui.

Maria Morais contou que o seu falecido esposo que lhe deixou com três filhos menores, teve um papel preponderante no 4 de Fevereiro, embora quase não se fale dele. “Eu conheci o Augusto Kiala Bengui depois da independência. Vivemos juntos até ao último dia da sua vida. Ele falava-me que foi o maestro e o comandante do 4 de Fevereiro. Ele foi o protagonista dos ataques da cadeia da PIDE-DGS no São-Paulo. Se formos a falar a verdade, Augusto Bengui foi o activista máximo do 4 de Fevereiro. Ele é que indicou o dia dos ataques e também foi ele que comprou os calções e as catanas”, disse.

Garantiu que o marido recebeu instruções a partir de Matadi, no então Congo Belga, hoje República Democrática do Congo, para onde viajava com frequência. Recebia de gente alegadamente ligada à UPA, que já não se recorda quem são essas pessoas.

Refere que foi o seu marido que escolheu a Rainha do 4 de Fevereiro, Engrácia Cabenha, para integrar as hostes dos patriotas, pois era importante contar com alguma representação feminina.

“O primeiro ataque aconteceu no dia 4 de Fe vereiro, foi comandado por Augusto Bengui e não fora muito sangrento como se propaga. Resultou apenas em duas baixas do lado dos angolanos, mas os colonos tiveram muitas mortes.

O segundo ataque foi no dia 11 de Fevereiro, foi feito a revelia fora do seu comando. Foi feito por Raul Deão e Neves Bendinha. Este foi desastroso para o lado dos nacionalistas angolanos, pois morreram muitos jovens”, contou, lembrando que o seu esposo foi tido pelas autoridades coloniais como o verdadeiro mentor e maestro do celebre ataque às cadeias da PIDE em Luanda. ‘’Até ficou preso em Tarrafal e só regressa em Angola após o 25 de Abril de 1974. No dia do primeiro ataque fugiu sozinho para as matas do Panguila.

E estava a ser procurado pela PIDE, mas voltou muito mais tarde depois dos acontecimentos, acho que foi em Maio de 1961, porque estava a sentir fome. Foi para a zona do Marçal e uma senhora lhe viu e foi denunciar às autoridades. Assim foi apanhado e levado para a cadeia onde ficou por cinco anos, sendo libertado em 1966, sob condição.

Ficou em liberdade limitada e com emprego na Diamang, antes de voltar a ser preso alguns anos mais tarde por participação na luta clandestina, e foi desterrado para a cadeia de Tarrafal onde encontrou Vicente Pinto de Andrade, Mendes de Carvalho e tantos outros”.

Sustenta que o seu esposo dizia sempre que não se pode atribuir em termos absolutos nem ao MPLA, nem à UPA a autoria desses ataques, “pois, os ataques às cadeias foram essencialmente resultado da saturação do povo angolano diante do sofrimento a que era votado pelos colonialistas portugueses. Naquela altura, não havia divisão de ideologia entre os nacionalistas”.

A viúva lamenta o facto das autoridades não lhe atribuírem ainda vivo a importância devida a um protagonista do início da luta armada e combatente pela liberdade.

Faleceu com a patente de tenenete-coronel e todos os seus subordinados foram promovidos a ao posto de general,ll.

Até o motorista de Imperial Santana atingiu tal promoção. Sobrevive graças ao subsídio de 300 mil kwanzas que lhe é atribuído pela Caixa de Segurança Social das Forças Armadas Angolanas.

A família se sente injustiçada já que todas as outras principias figuras do 4 de Fevereiro estão bem da vida. Para adicionar à renda vende bombó à porta de casa.

“A grande confusão foi na Caixa Social das FAA, onde alguém começou por trocar o seu nome de forma propositada para o prejudicar nas promoções”, recorda, lamentado também o facto de nunca ter beneficiado de uma residência à altura da envergadura da figura de Augusto Bengue como o pioneiro da luta de libertação nacional.

A casa onde reside é uma casa trânsito do comité 4 de Fevereiro. “E já nos disseram que a qualquer altura podemos deixa-la”, completa, sublinhando que Sublinha a quando da morte do esposo uma das suas antigas companheiras com os filhos lhe despojaram das suas coisas, assim como as viaturas que o marido possuía e ficou sem pensão dos antigos combatentes.

Conta que passou por algumas peripécias. Para piorar, “o meu filho fez teste no ITEL e obteve a melhor nota mas não entrou, porque o director dessa escola impediu a sua entrada. Com a pressão do Comité 4 de Fevereiro conseguiu entrar”. Terminou a formação média como um dos melhores estudantes e teve o melhor projecto de invenção. “Mas uma vez o director retirou o meu filho para irem apresentar o mesmo projecto na Alemanha. Esse país não valoriza os filhos e as viúvas dos antigos combatentes”, deplorou.

Quando morre um combatente do 4 de Fevereiro, disse ainda, as famílias ficam desamparadas e não são apoiadas. “É necessário que o Comité exija ao Estado apoio contínuo às viúvas e os filhos do 4 de Fevereiro’’, defendeu.

SEM CONDECORAÇÃO

Augusto Kiala Bengue foi um dos nacionalista angolanos que não foi condecorado no âmbito dos 50 anos da independência. “Sabemos que algumas pessoas continuam a combater o nome desse nacionalista e não querem reconhecer a sua participação na luta de libertação nacional”.

E OS OUTROS?

Por sua vez, o antigo combatente e veterano da pátria, Adão Munzombo, que combateu pelo MPLA, considera que a vida dos antigos combatentes em Angola é dura. “Os que têm sorte de ser considerados recebem 57 mil kwanzas. A minha pensão de reforma é de 57 mil kwanzas. Para que serve este valor ? Ou seja, não serve para comprar nada. Estamos a sobreviver”, reforçou, acrescentando que “nem todo o antigo combatente que lutou contra o colonialismo e contra a guerra fratricida do MPLA, contra a FNLA e a UNITA é considerado”.

De acordo com ele, existem vários tipos de antigos combatentes: Há antigos combatentes que não são combatentes, são membros do partido governante, ou que já passaram pelo partido, e independentemente da sua idade, estão inclusos na Caixa Social das Forças Armadas e outros estão como antigos combatentes e veteranos da pátria”.

Exige a correcção desta situação, chamando atenção ao Governo. Os verdadeiros antigos combatentes, os reais, deviam ser remunerados. Os três movimentos deviam corrigir as coisas”.

Tambem António Fonseca, que lutou pelo MPLA, sente-se amargurado. “Nós combatemos pela pátria e merecemos respeito”, declara.

E sente-se mal na medida em que a pensão não chega para o aluguer da casa, alimentação, e saúde.

Manzambi Maurício fez parte do braço militar da UNITA, as Forças Armadas de Libertação de Angola (FALA), movimento militar criado por Jonas Savimbi. Diz que não se justificam as dificuldades por que têm passado os antigos combatentes dos três movimentos de libertação. Acusa o Governo de estar a marginalizá-los.

 “Os antigos combatentes já não têm valor, só estão a valorizar os que estão a ser reformados agora pela Caixa de Segurança Social das Forças Armadas. Os que estão nos antigos combatentes passam vergonha”.

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