ERNESTO MUANGALA NO LIMIAR DA IGNORÂNCIA – HITLER SAMUSSUKU
Em sistemas democráticos, espera-se que o poder público funcione como árbitro institucional, garantindo condições mínimas de igualdade entre forças políticas concorrentes. No entanto, em alguns contextos, a fronteira entre Estado e partido continua perigosamente diluída. A história recente de algumas províncias angolanas oferece exemplos eloquentes dessa confusão — e um dos episódios mais comentados envolve a actuação de Ernesto Muangala.
.Na véspera das eleições gerais de 2022, quando o ambiente político em Angola já era marcado por forte polarização entre o MPLA e a UNITA, a província da Lunda Norte assistiu a um episódio que muitos classificaram como expressão extrema de intolerância política. À época governador provincial, Muangala decidiu mandar encerrar hotéis e hospedarias para impedir que recebessem a delegação da UNITA. Como se não bastasse, determinou igualmente o encerramento das bombas de combustível, numa tentativa evidente de dificultar a mobilidade da comitiva do principal partido da oposição.
A medida foi tão insólita quanto reveladora de uma mentalidade política que encara a competição democrática como uma ameaça existencial e não como parte normal do funcionamento do sistema. Em vez de administrar a província para todos os cidadãos, o governador parecia agir como guardião de um território partidário.
Quatro anos depois, já em março de 2026 e agora à frente da província do Moxico, novos episódios vieram reacender o debate sobre o estilo político de Muangala. Segundo relatos que circularam na esfera política local, o governador teria advertido a direcção da UNITA para não utilizar o caminho que conduz ao Muangai, alegando que a zona não estava desminada e que havia minas no percurso. Paralelamente, na cidade do Luena, foi registado o desligamento da energia elétrica durante actividades políticas da oposição, situação que muitos interpretaram como tentativa de inviabilizar um comício.
Mais do que incidentes isolados, estes episódios revelam uma postura política que parece pouco compatível com os princípios de pluralismo e convivência democrática. A intolerância política raramente se manifesta apenas no discurso; frequentemente traduz-se em decisões administrativas que acabam por afetar toda a sociedade.
Curiosamente, Ernesto Muangala não nasceu politicamente nos corredores partidários. Formado em medicina na antiga União Soviética — país cuja experiência política terminou em colapso no início da década de 1990 —, a sua vocação inicial era cuidar de pacientes e não gerir disputas partidárias. O destino, no entanto, empurrou-o para a política.
Conta-se que em 2008, quando o então presidente José Eduardo dos Santos procurava alguém que dominasse a língua tchokwe para governar a Lunda Norte, o nome de Muangala foi sugerido por João Ernesto dos Santos Liberdade “SaQuintas”. Na altura, o médico terá recebido a notícia com lágrimas e reservas, afirmando a vizinhos que não gostava de política e que apenas aceitava a função como missão imposta.
O tempo, porém, tratou de transformar a missão em carreira.
Hoje, a impressão que ficou é a de que aquele homem que um dia dizia não desejar a política passou a vê-la como destino permanente — quase como se os cargos públicos fossem propriedades pessoais e não funções transitórias ao serviço do Estado.
Mas há um aspecto frequentemente ignorado nesses gestos de intolerância: o impacto económico. Quando uma delegação política viaja para uma província, ela movimenta a economia local. Hospeda-se em hotéis, consome em restaurantes, compra serviços, contrata transportes. Pequenos empresários e trabalhadores locais beneficiam directamente dessa circulação.
Quando, por intolerância ou cálculo político, um governante decide impedir essa presença, quem paga a factura não é apenas o partido visado. É a economia local que perde receitas, são hotéis que deixam de facturar, são postos de combustível que deixam de vender, são trabalhadores que deixam de ganhar.
No fundo, o prejuízo recai sobre a própria província que o governante deveria desenvolver.
A política, quando praticada com maturidade, reconhece a diferença como elemento natural da sociedade. Governar não é silenciar adversários; é garantir que todos possam existir dentro das regras do jogo.
Quando um dirigente público não consegue conviver com a diferença, revela mais sobre as suas próprias limitações do que sobre a força dos seus adversários. E, nesse caso, a questão deixa de ser partidária — passa a ser um problema de cultura política.
Porque a democracia, no fim das contas, mede-se precisamente pela forma como o poder trata quem pensa diferente.
Por Hitler Samussuku