DETENÇÃO ARBITRÁRIA DE 24 JOVENS LEVANTA INDIGNAÇÃO E QUESTIONA ACTUAÇÃO POLICIA NACIONAL NO UÍGE
Na passada semana, 24 jovens foram recolhidos no mercado da Praça Grande, na província do Uíge, sem qualquer acusação formal, num caso que está a gerar revolta e sérias dúvidas sobre o respeito pelos direitos fundamentais dos cidadãos.
Segundo relatos recolhidos no local, agentes da Polícia Nacional deslocaram-se ao mercado e abordaram jovens que trabalham na reparação de telemóveis. De forma aparentemente pacífica, os mesmos foram “convidados” a comparecer no Comando Municipal do Uíge, sob o pretexto de um suposto processo de cadastramento.
No entanto, ao chegarem ao comando, o cenário mudou drasticamente. Os jovens foram imediatamente detidos e acusados, sem provas apresentadas, de estarem envolvidos na descodificação de telemóveis roubados — uma acusação grave, mas até ao momento não sustentada por qualquer evidência pública.
Fontes locais indicam ainda que a detenção poderá estar ligada ao desaparecimento de um telemóvel pertencente à alegada esposa do Comandante Municipal. A partir desse episódio, o comandante terá ordenado a detenção em massa dos jovens, numa acção que levanta fortes suspeitas de abuso de poder e justiça seletiva.
A imagem em anexo expõe uma realidade ainda mais chocante: jovens amontoados em condições desumanas, sem espaço, sem dignidade, tratados “como lixo”, conforme descrevem testemunhas. Muitos foram obrigados a dormir no chão, em posições precárias, numa situação popularmente descrita como “dormir à catana” — expressão que ilustra o sofrimento físico e psicológico enfrentado dentro das celas.
Este caso levanta uma questão central que ecoa entre os cidadãos:
Em Angola, prende-se para investigar ou investiga-se para prender?
Num Estado de Direito, a regra deve ser clara: ninguém pode ser privado da sua liberdade sem provas, sem acusação formal e sem o devido processo legal. O que se observa, no entanto, é uma prática recorrente de detenções arbitrárias, onde cidadãos são tratados como culpados antes mesmo de qualquer investigação séria.
A situação no Uíge exige esclarecimentos urgentes por parte das autoridades competentes, bem como a responsabilização dos envolvidos. Mais do que isso, exige uma reflexão profunda sobre o funcionamento das instituições e o respeito pelos direitos humanos em Angola.
Enquanto isso, 24 jovens continuam a carregar o peso de uma acusação sem provas e o trauma de terem sido tratados sem qualquer dignidade.
De: Amilson Mï Güēll’s – Ativista social e defensor dos direitos humanos