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O PÉ NA CAIXA E O PESO DA AUTORIDADE – OLAVO CASTIGO

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A rua não mente. Ela só registra.

Na imagem, um policial da farda azul está ali, de pé na calçada, com o pé direito em cima da caixa de bolos da senhora. O corpo inclinado, o olhar perdido no horizonte, como quem faz aquilo todos os dias. E a dona? Sentada no chão, pano na cabeça, olhar baixo, as mãos sobre o pano da saia. Não grita. Não discute. Talvez porque já aprendeu que discutir com bota é perder duas vezes: perde o produto e perde a paz.

“Assim ainda com tais chulé, pisou na caixa de bolos!!!!!!!!!!” — escreveu quem tirou a foto. E a exclamação não é exagero. É grito mudo.

Aquilo não é só uma caixa de plástico com bolos. É o dia daquela mulher. É o pão dos filhos. É o dinheiro do táxi, do sabão, da caderneta da escola. É o suor de quem acorda 5h da manhã para fritar, embalar, e sentar no chão quente à espera de um cliente que talvez não venha.

E vem o agente do Estado. Aquele que jurou proteger. Aquele que carrega o símbolo da lei no ombro. E usa esse peso todo para apoiar o pé numa caixa de 2.000 kwanzas.

O problema não é o pé. O problema é o que o pé representa.

Representa a ideia de que quem vende na rua não é gente de respeito. Que o pobre pode esperar. Que a lei serve para mandar, não para servir. Que a autoridade se prova humilhando, não protegendo.

Se fosse para uma abordagem, bastava uma palavra. “Tia, tira daqui, estás a obstruir”. Mas não. Foi mais fácil o peso da bota. Mais rápido, mais barato, mais comum.

A crônica da nossa sociedade escreve-se nesses detalhes. Não nos discursos do 11 de Novembro, mas no pé na caixa de bolo da tia do candongueiro. Porque ali se vê o tipo de país que estamos a construir: um país onde quem tem farda acha que tem dono.

A senhora vai juntar os bolos amassados, limpar o que der, e tentar vender o resto. Porque fome não espera desculpa.

E o polícia? Vai embora. A bota limpa, a consciência talvez não.

Até quando vamos achar normal que o Estado pise em quem sustenta o Estado de pé?

P.S.: Autoridade sem humanidade vira apenas abuso com uniforme.

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