BLOQUEIO DE INVESTIMENTO LIGADO EM ANGOLA: PARTES ENVOLVIDAS NÃO DESARMAM
Um oficial superior das Forças Armadas Angolanas (FAA), identificado como Carlos Manuel Afonso, denunciou junto da Presidência da República, Procuradoria-Geral da República (PGR), Conselho Superior da Magistratura Judicial, Supremo Tribunal Militar e outras instituições do Estado um alegado esquema de perseguições, pressões e interferências institucionais que, segundo afirma, estaria a bloquear um investimento privado associado ao grupo indiano Tata Motors em Angola.
Segundo o denunciante, o caso gira em torno de um terreno com cerca de 7,88 hectares, localizado ao longo da Avenida Deolinda Rodrigues, no bairro Capolo I, em Luanda, pertencente ao cidadão Ângelo Armando Almeida Dias, quem se afirma ser procurador irrevogável.
Carlos Manuel Afonso explicou ao Jornal Na Mira do Crime que recebeu poderes para tratar da legalização, gestão e negociação do imóvel, tendo posteriormente iniciado contactos com investidores interessados no espaço.
De acordo com documentos apresentados à nossa reportagem, a empresa Panafrique Motors, associada ao grupo Tata Motors, manifestou interesse na aquisição de uma parcela de 4,5 hectares para a implementação de um projecto industrial ligado à montagem de tractores e maquinaria agrícola em Angola.
Uma carta de intenção datada de 3 de Junho de 2025 indica uma proposta avaliada em cerca de 330 milhões de kwanzas por hectare.
Segundo o oficial das FAA, o projecto previa não apenas a instalação de uma unidade industrial em Angola, mas também uma possível expansão regional para mercados como Zâmbia, Zimbabwe e República Democrática do Congo, aproveitando as vantagens logísticas do Corredor do Lobito.
“O objectivo era criar um grande projecto industrial ligado ao sector agrícola e de maquinaria pesada, com impacto económico e geração de empregos”, explicou o denunciante.
Histórico de polémicas
Carlos Manuel Afonso afirma que os problemas começaram no final de 2024, depois do surgimento de investidores estrangeiros interessados no terreno. Antes da entrada dos investidores, relatou, teria estabelecido uma parceria com o empresário e advogado Alcatir José Marcos da Costa para financiar o processo de legalização da propriedade.
De acordo com a sua versão, o acordo previa a divisão do terreno, ficando 3,38 hectares destinados à empresa Aliatec, ligada a Alcatir Costa, e os restantes 4,5 hectares sob responsabilidade de Ângelo Armando Almeida Dias.
No entanto, o denunciante acusa Alcatir Costa de alegadamente tentar assumir o controlo total do espaço após o avanço das negociações com investidores internacionais.
Carlos Manuel Afonso afirma ainda que, na sequência dos desentendimentos, passou a sofrer alegadas perseguições e pressões institucionais.
Dentre as alegações apresentadas pelo oficial das FAA constam supostos bloqueios de contas bancárias, apreensão de telemóvel, suspensão salarial, instauração de processo disciplinar, intimidações e tentativas de obtenção forçada de documentos originais do terreno.
O denunciante afirma possuir áudios, mensagens e outros elementos que, segundo diz, sustentariam as acusações apresentadas às autoridades.
Defesa contesta acusações
Contactado pelo Jornal Na Mira do Crime, Alcatir José Marcos da Costa rejeitou todas as acusações feitas por Carlos Manuel Afonso, afirmando que as declarações “não correspondem à verdade”.
Segundo o empresário, os denunciantes estariam alegadamente a tentar usurpar um terreno sobre o qual diz possuir toda a documentação legal.
“Eles querem tomar o meu espaço. Tenho toda a documentação e posso provar”, desafiou.
Inicialmente, Alcatir Costa manifestou disponibilidade para prestar esclarecimentos, presencialmente, e apresentar documentos relacionados ao caso, propondo que o encontro decorresse no seu escritório, localizado no Guiché.
Entretanto, por questões de segurança e critérios editoriais, a redacção sugeriu que o encontro fosse realizado num espaço público previamente definido pelo jornal.
Posteriormente, o empresário informou que não teria disponibilidade para o encontro naquele momento, alegando estar numa audiência, e indicou a sua assistente para tratar do assunto, afirmando que a mesma dominava os detalhes do processo.
Segundo apurou a redacção, uma das preocupações manifestadas por Alcatir Costa prendia-se com o acesso aos documentos fornecidos pelo denunciante Carlos Manuel Afonso.