EMPRESÁRIO BARTOLOMEU DIAS NA MIRA DA PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA (PGR)
A recente constituição como arguido do antigo ministro das Relações Exteriores, Georges Chicoty, é interpretada em meios políticos e judiciais como um desenvolvimento que poderá conduzir as investigações ao empresário Bartolomeu Dias, apontado como uma das figuras centrais na operação de aquisição do edifício destinado ao Consulado-Geral de Angola em Lisboa.
Segundo fontes do Club-K conhecedoras do processo, a investigação da Procuradoria-Geral da República (PGR) procura reconstituir todas as etapas da operação imobiliária realizada em 2015, incluindo a participação de entidades públicas e privadas envolvidas na negociação.
No centro da investigação está um edifício localizado na Avenida João Crisóstomo, em Lisboa, adquirido pelo Estado angolano através de um contrato-promessa de compra e venda no valor aproximado de 15,97 milhões de euros. Apesar de o pagamento ter sido efetuado, a escritura pública nunca chegou a ser celebrada, impedindo a transferência definitiva da propriedade para o Estado angolano e originando um diferendo que permanece por resolver.
A operação foi alvo de forte controvérsia desde o início. Reportagens divulgadas na época apontavam que o imóvel teria sido adquirido anteriormente por cerca de seis milhões de euros, sendo posteriormente vendido ao Estado angolano por um valor superior a quinze milhões de euros, circunstância que alimentou suspeitas de sobrevalorização do ativo e de uma eventual intermediação altamente lucrativa.
As mesmas fontes recordam que Angola já dispunha de instalações consulares em Lisboa, circunstância que levou vários setores a questionarem a necessidade da aquisição, bem como os critérios que presidiram à decisão.
Embora a investigação tenha permanecido durante vários anos sem desenvolvimentos públicos relevantes, a constituição de Georges Chicoty como arguido é vista como um sinal de que o processo entrou numa nova fase. Além do antigo chefe da diplomacia angolana, foram igualmente ouvidos o ex-embaixador de Angola em Portugal, José Marcos Barrica, e outros diplomatas que participaram no processo administrativo da aquisição.
Fontes próximas da investigação admitem que o Ministério Público procura agora determinar o circuito financeiro da operação, identificar os beneficiários económicos da transação e apurar se existiu ou não prejuízo para o Estado.
Da proximidade ao confronto com João Lourenço
O nome de Bartolomeu Dias voltou igualmente ao centro das atenções devido ao seu percurso político-empresarial.
Durante vários anos foi considerado um empresário próximo de João Lourenço, numa relação construída antes da chegada deste à Presidência da República. Essa proximidade, segundo diversas fontes, deteriorou-se pouco tempo depois da tomada de posse do atual Chefe de Estado.
O ponto de rutura ocorreu em 2018, quando João Lourenço travou o projeto Air Connection Express, uma nova companhia aérea privada que estava a ser estruturada por um consórcio de empresários e individualidades ligadas ao aparelho do Estado.
Bartolomeu Dias integrava o projeto através da sua empresa de aviação Diexim Expresso e, na sequência do cancelamento da iniciativa, passou a assumir uma postura pública de forte crítica ao Presidente da República, tornando-se uma das vozes empresariais mais incómodas para o poder político.
Desde então, o empresário tem surgido associado a sucessivas denúncias sobre alegadas irregularidades na gestão pública, enquanto, paralelamente, vários dos seus negócios passaram a ser alvo de escrutínio pelas autoridades.
Em meios políticos, a coincidência entre a deterioração das relações com João Lourenço e o ressurgimento de antigos processos envolvendo o empresário continua a alimentar leituras divergentes. Enquanto setores próximos do Executivo defendem que as investigações decorrem no âmbito do combate à corrupção, outros consideram que alguns processos refletem igualmente o ambiente de recomposição de forças no seio do MPLA.
Até ao momento, Bartolomeu Dias não foi constituído arguido no processo relativo à compra do edifício do Consulado de Angola em Lisboa, nem a PGR confirmou oficialmente qualquer diligência dirigida ao empresário, mantendo-se, por isso, plenamente aplicável o princípio constitucional da presunção de inocência.