ANGOLANOS DEFRAUDADOS, IMPRENSA MERGULHADA NUM TÚNEL ESCURO
As recentes ameaças contra a integridade física do director do Jornal e TV Hora H, Escrivão José, volta a trazer à ribalta o velho assunto sobre o livre exercício de informar o público, tendo em conta os obstáculos enfrentados pelos jornalistas, entre os quais, a enorme dificuldade que se enfrenta para se ter acesso às fontes oficiais. Esta situação tem coartado a liberdade de imprensa, de expresão e de pensamento, impede o normal e salutar desempenho da comunicação social e cria um clima desabonatório na sociedade.
Em Angola, a classe jornalística permanece numa encruzilhada que emperra o rumo da comunicação social no país, atrapalhando todo o desempenho dos profissionais do sector que temem pelo seu futuro e o da profissão em si.
A situação, que prevalece ao longo dos anos, é deveras assustadora e a degradação, que tem sido imposta, soma e segue, destruindo implacavelmente tudo o que se foi construindo ao longo dos anos pós-independência.
Durante os primeiros anos de liberdade e autonomia como país, em que o governo angolano se regia pela filosofia socialista, era o Estado que detinha e controlava tudo e todos, a imprensa principalmente; ninguém podia “tossir” que tinha que justificar porque o fizera e se “arrotasse”, a coisa podia ser muito pior, porque se a justificação não convencesse, a situação de quem o fizera podia dar para o torto.
Depois das primeiras eleições multipartidárias realizadas em 1992, quando se pensava que os jornalistas passariam a respirar ares mais salutares com o surgimento de órgãos privados, independentes, foram surgindo, em simultâneo, práticas lesivas ao Estado e aos cidadãos, geralmente por parte de governantes e dirigentes a vários níveis que passaram a ser denunciadas abertamente pelos novos órgãos que começaram a ser vistos como “alvos perigosos” que se devia “abater”.
Assim, a imprensa privada passou a ser perseguida, sofreu, criaram-se todo o tipo de dificuldades para a impedir de trabalhar; jornalistas foram mortos, alguns sofreram duras sevícias, outros foram presos, os jornais mais destacados foram simplesmente canibalizados e extintos.
Hoje por hoje, é preciso fazer das tripas coração, para se exercer a profissão. Deixou de haver jornais na rua. Os que ainda estão a resistir, todos online, graças à Internet, são “autênticos heróis”, que enfrentam todo tipo de adversidades.
Quando João Lourenço tomou posse como Presidente da República, anunciou que novos ventos soprariam em Angola no que tange à liberdade de imprensa, de expressão, na relação com os órgãos de comunicação social e com os jornalistas.
Depois da “boa impressão” inicial, o Presidente divorciou-se da imprensa, deixou de realizar as entrevistas colectivas, depois das concedidas em 2017 e 2018 e após garantir que o modelo considerado “inovador” viera para ficar, grande parte das entrevistas de João Lourenço foi concedida a órgãos estrangeiros.
Em jeito de justificação, ante as críticas que de imediato se levantaram, fonte da Presidência apontou a pandemia da Covid-19 como o principal impedimento à realização das entrevistas colectivas.
Para os jornalistas, a justificação não colheu, considerando que nesse tempo, apesar da pandemia, o Presidente da República promoveu diversos encontros colectivos com outros sectores da sociedade.
Assim sendo, foi-se assistindo a “mais do mesmo”, ou seja, ao monopólio e controlo dos órgãos de comunicação públicos, retomando os métodos do sistema anterior, demonstrando, sem apelo nem agravo, uma realidade ameaçadora ao estado de direito democrático.
Na mesma esteira, a segurança dos jornalistas voltou a preocupar sobremaneira a classe; o controlo absoluto das linhas editoriais, o encerramento de vários órgãos de comunicação, foi outro sinal de que a situação estava a entrar para um “túnel” demasiado escuro.
“O Governo tem que rever a sua estratégia de comunicação e o Presidente, enquanto mais alto mandatário da nação, não pode dar o dito pelo não dito. Ele deve ser o exemplo de organização, rectidão, lealdade, verticalidade”. (Jap Kamoxi)