“A MAIORIA DOS GUARDAS DE NETO NÃO TEM CASA” AFIRMA FUNDADOR DA UGP

Fundador da UGP – Unidade de Guarda Presidencial (hoje Unidade de Defesa Presidencial- UDP), tenente Gomes Pontes da Silva, lamentou o facto de nem sequer estar inscrito na Caixa de Segurança Social das Forças Armadas Angolanas e vive com um subsídio como antigo combatente na ordem de 57 mil kwanzas, disse ao Pungo a Ndongo
“Não tenho reforma na Caixa de Segurança Social das Forças Armadas Angolanas. Para sobreviver recebo esses míseros 57 mil kwanzas. Para quem ajudou a libertar este país é muito grave. Passei a minha juventude a lutar pela estabilidade de Angola para receber um subsídio de misera”, deplorou, indicado que os que não estavam nas matas estão melhor servidos. Clama por isso pelo reconhecimento pelo Governo de todos aqueles que combateram pela pátria.
Dos efectivos da extinta UGP, no seu tempo, agora transformada em UDP já sobram poucos. “Somos poucos os militares que fundaram a Guarda Presidencial porque a maior parte já morreu por falta de apoio condigno”, constata. E como disse, a situação só piorou, porque no mandato do Presidente José Eduardo dos Santos, o general Kopelipa, na condição de Chefe da Casa Militar da Presidência da República, tinha sido incumbido a criar condições para todos os militares que fundaram a unidade, em Fevereiro de 1976, mas ele não cumpriu.
As condições evocadas passavam pela atribuição de apartamentos na Centralidade do Kilamba, mas foram ‘fi ntados’. “Hoje boa parte daqueles que foram guardas de Neto não têm casa, nem um meio de transporte. Fizemos diligências nesse mandato do Presidente João Lourenço, mas também nada colhemos ainda”, disse Gomes da Silva. Mesmo assim, apela a juventude para a preservação dos ganhos da paz.
“Os jovens não estão a saber preservar os ganhos da independência. A nossa geração quando acabar não sei como será de Angola. Isso é um perigo”, adverte, expressando que hoje os jovens estão mais preocupados no saque do erário e transferirem montantes para a Europa do que olhar para dentro do país. E se isso não se acautela, admite que no futuro próximo quem vai mandar em Angola serão mesmo os estrangeiros.
Gomes da Silva diz ainda que como ele estão na mesma condição os colegas de trincheira, nomeadamente, ‘Hoje’ e Abunda Alembwa entre outros vivos.
EPISÓDIO COM A FNLA
Gomes da Silva lembrou que na véspera da independência foi escorraçado pelos militares do ELNA, então braço armado da FNLA na cidade do Uíge para as matas. “Passei dois anos nas matas em conjunto com outros militares das FAPLA. Saímos do mato quando as FAPLA começaram a correr com as tropas da FNLA com os mercenários zairenses e sul-africanos no Norte. A coluna dos cubanos salvou-nos pelo caminho”.
Quando os cubanos os apanharam explicaram que eram das extintas FAPLA, braço armado do MPLA e foram logo aceites a integrar a coluna para libertar o Norte do país. ‘’Depois de corremos com ELNA de Angola os cubanos nos avisaram que a Presidência da República estava a precisar de militares para reforçar a Guarda Presidencial. E foi assim que saímos do Norte para Luanda até a Camuxiba, na Samba”. De seguida foram parar a Ilha da Cazanga, onde actualmente treinam os fuzileiros navais.
“Treinamos guarda pessoal, comandos assim como inteligência e contra inteligência militar. Depois de um mês fomos para o Departamento de Segurança Presidencial e divididos um grupo para o Palácio e outro para o Regimento de Tanques da mesma unidade”.
Contou ainda um episódio ocorrido no Uíge, em 1974, quando militares da FNLA os insultaram, mas nada podiam fazer porque eram poucos. “Ficamos sentados na delegação do MPLA no Uíge e para piorar tínhamos poucas armas. Ficávamos apenas assentados sem fazermos nada. Afinal eles começaram a se organizar. Um dia destes de que já não me lembro eles começaram a fazer tiros a ‘queima-roupa’ para a nossa delegação.
Quer dizer, começamos a ser atacados . Tivemos que abandonar o posto”. A delegação do MPLA na altura estava na cidade do Uíge na margem do rio Candombé e a FNLA estava dentro da cidade. A divisão era o rio. No ataque a delegação foi tomada e os que foram apanhados foram mortos sem piedade.
Assim, o MPLA teve que abandonar o Uíge, passando para as matas de Quitexe, de Vista Alegre, Aldeia Viçosa, Nambuangongo, Quibaxe e tantos outros lugares que serviram de pontos de reorganização para a ofensiva contra os atacantes. “Ficamos por dois anos nessa situação até 1975. Quando começou os ataques para impedir a independência nacional pelo ELNA estávamos nas matas e só saímos depois de vermos que a situação militar estava sob o controlo das FPALA e as viaturas já circulavam”.
Trajectória
Gomes da Silva nasceu na aldeia de Quilumbo, município de Mucaba, província do Uíge. Completa 80 anos de idade a 25 de Dezembro próximo. Por altura dos ataques do 15 de Março de 1961 estava na sua zona de origem com apenas 16 anos na companhia dos pais.
Conta que com a fúria das matanças protagonizadas pela UPA em função dos maus tratos que estávamos a viver na nossa terra, o colono português começou a chamar os mais velhos desde os catequistas, regedores, sobas que já tinham a 4ª classe para serem mortos, por suspeita de que eles estariam por trás dos ataques nas fazendas.
Sofreu a perseguição da PIDE–DGS, com o pai, soba Silva Gomes “e mais outros populares da nossa regedoria tivemos de nos refugiar nas matas para nos organizamos com catanas, armar de repetição (canhangulos) e kimbonguela, fazendo emboscadas contra os brancos quando nos perseguissem”.
A luta de libertação levada a cabo pela UPA/ FNLA no Norte de Angola teve a duração de 14 anos. “No final de 1962 as populações que estavam sob controlo do meu pai tiveram de se apresentar, porque não tínhamos uma outra saída. Os bombardeamentos da força aérea nas matas eram constantes. Eles perseguiam sem nos dar tempo para fazermos outras coisas”. Então, em 1965 saíram das matas e nada mais lhes aconteceu até à revolução dos cravos, em 1974. No Mucaba chegou a trabalhar como escriturário de 3ª classe na administração colonial. À luz do programa radiofónico ‘Angola Combatente’, em 1974 ingressou no MPLA.
Lembra das pessoas que estavam com ele na delegação do MPLA no Uíge: Pedro Paxe, o Chuva, o Abílio Neves, o Silas e os falecidos António Paxe, Ti Didi, Simão Pedro, o António e tantos outros. “Também tínhamos algumas senhoras. Eram poucas como é o caso da Mamã Leia que também vive graças a ajuda dos fi lhos” .