ESTRADAS DA MORTE: QUANTOS MAIS SENHORES MINISTROS DA INCOMPETÊNCIA?
A sinistralidade rodoviária em Angola está na ordem do dia. Morre-se a granel nas estradas nacionais, ficando os acidentes rodoviários como a segunda causa de morte no país depois da malária. O mês de Março ainda não terminou e já estão contabilizados, pelo menos dois acidentes que numa assentada, na EN 100, vitimaram 32 pessoas. Por que se morre tanto nas estradas angolanas? O Pungo a Ndongo traz esta abordagem, ouvindo entidades de diferentes matizes
Os dados compilados pela polícia são alarmantes. Mas mais ainda é saber que num curto intervalo de sete dias tenham morrido mais de 30 pessoas só no troço rodoviário entre Sumbe e Luanda, na Estrada Nacional 100 (EN 100). Isso mesmo: 33 pessoas, com mais um resultante do capotamento, esta terça-feira de um caminhão contentorizado no Cabo Ledo.
Se num dos acidentes anteriores, foi por descomando de um autocarro da Macon, onde viajavam mais de 50 pessoas, neste último, como noticiado pela TPA, o acidente foi de um camião contentorizado.
Fonte da televisão pública dá conta de que o acidente ocorreu quando um camião contentorizado terá perdido o controlo e, de seguida, capotou, tendo provocado mais esta vítima mortal.
A situação, não está para menos e exige uma resposta clara e urgente, sendo que pratica mente, a cada dia acontecem acidentes não só nesta via (EN 100), como em outras deste país, por várias razões.
ENTÃO, POR QUE MORRE TANTA GENTE NAS NOSSAS ESTRADAS? A ESTA PERGUNTA
Samir Kitumba da Silva Gomes, antigo funcionário do Fundo Rodoviário, diz que “quanto mais velhas forem as estradas, mais perigosas se tornam”.
De acordo com ele, “o Governo desenvolve todos os esforços para melhorar a malha rodoviária”, mas reconhece, não termos, ainda assim, estradas funcionais.
“Não temos estradas funcionais. Por isso, os condutores devem ter mesmo prudência, so bretudo, no período nocturno”, destaca Samir Kitumba, defendendo ainda a necessidade de um maior controlo pela polícia “mas isso só não basta.
As operadoras como Macon, Huambo Express e outras, devem exercer um maior controlo sobre os seus serviços”.
Numa só palavra, Samir Kitumba, agora ao serviço do Gabinete Técnico de Gestão da míbia, Botswana e África do Sul, que têm boas estradas.
“As nossas estradas de longo curso não têm bermas. Um ligeiro despiste encontra logo uma valeta e surge o capotamento. Além disso, o perfil destas mesmas estradas, quando chove, ficam escorregadias”.
O engenheiro referiu-se também à falta de iluminação e sinalização horizontal e vertical, como uma das causas dos acidentes, que poderão acontecer sempre se não forem tomadas medidas urgentes.
ÁREAS DE REPOUSO
António Madureira (nome fictício), formado em construção civil, diz que as transportadoras devem pagar bem os seus motoristas, que devem, ao mesmo, tempo ter um periodo longo de descanso, porque conduzir, sobretudo à noite, requer redobrada atenção. Francisco Lopes volta à conversa, reforçando esta necessidade do repouso dos condutores: “Não temos oficinas estalagens ao longo das nossas estradas para que o condutor possa descansar. Depois não temos nenhum ministério, onde possamos pedir responsabilidades”.
Manuel Francisco, economista reformado, mas também técnico de construção civil lamenta o elevado índice de mortes nas estradas nacionais e elenca os aspectos para reduzir a sinistralidade rodoviária, nestes temos: “a) De forma genérica a polícia deve ser mais actuante na fiscalização preventiva nas entradas e saídas das localidades (sem extorsão).
No caso dos transportes colectivos, testar sempre o bafômetros e interrogar o ‘driver’ se dormiu e a quantas horas está a conduzir.
B) Fiscalizar os transportes colectivos sobre a legalidade documental quer da companhia quanto dos motoristas.
C) Com carácter obrigatório as companhias devem implantar a monitorização por GPS com limite de velocidade.
A Macon começou assim e desistiu…
D) Proibição dos transportadores públicos de fazerem viagens nocturnas, por exemplo, até às 22 horas.
E) Fiscalização das escolas de condução para aferir a idoneidade destas. Os serviços de viação e trânsito devem providenciar a atribuição de cartas com urgência e submeter a um teste específico a candidatos das companhias.
F)… Melhoramento da sinalização e do tape asfalto em pontos críticos das rodovias incluindo cortes de capim.
G) Nas estradas críticas deve haver helicópteros de emergência”.
E, por fim, prosseguiu Manuel Francisco, “é preciso mitigar a corrupção nos serviços que intervém na segurança rodoviária”. Zeca Van-Dunem, antigo comandante da construtora Aerovia no Cuando Cubango, defende, por sua vez, a redução de velocidade, controlar a emoção, e redução ao consumo de álcool.
Também elenca a necessidade do tempo suficiente de descanso para os motoristas, melhorar as vias, e avançar com a inspecção minuciosa aos veículos, para além da iluminação nas estradas que, no seu ver, está “a zero por cento”.
O engenheiro Francisco Lopes, insiste no entanto, que o problema não está apenas nas operadoras, mas na falta de um ministério das infraestruturas que vele pela manutenção contínua da nossa malha rodoviária.
Segundo este especialista, as estradas têm de entrar num projecto de manutenção diária. “Tem de haver homens que recebam dinheiro para fazer esse serviço continuo. Não os privados, porque estes andam atrás do lucro”, defendeu, admitindo ainda que deve haver uma reforma profunda inclusive nas vias urbanas das cidades, com retornos bem definidos. Defende também a necessidade da formação de engenheiros de trânsito.
“As universidades devem formar técnicos de acordo com as nossas necessidades. Se não tivermos bons quadros, não teremos boas empresas”, afirmou, criticando o facto de a construtora Omatapalo estar sempre a ganhar concursos de empreitadas públicas.