JOÃO PAULO GANGA AFINAL QUIS FAZER PARTE DO SISTEMA?
Em política, as escolhas individuais têm peso público — sobretudo quando envolvem figuras que, em determinado momento, se posicionaram como vozes críticas do sistema. É por isso que surgem hoje interrogações legítimas sobre João Paulo Ganga e a necessidade urgente de esclarecimento perante informações que circulam e que, segundo fontes consideradas bem posicionadas, merecem resposta clara.
As informações indicam que João Paulo Ganga exerce funções como consultor principal da Agência Nacional de Petróleo e Gás e que colabora igualmente com a Presidência da República de Angola. Indicam ainda que a sua filha, M. Ganga, desempenha funções na Sonangol, no departamento de Comunicação e Marketing, e que a sua esposa é funcionária sénior da Administração Geral Tributária (AGT).
Se estas informações não correspondem à verdade, o mais simples e honesto seria um desmentido público. O silêncio, nestas circunstâncias, apenas alimenta especulações — inclusive as mais injustas. E é precisamente por respeito à sua própria trajetória que se impõe o esclarecimento.
A questão central é política e moral: pode alguém ser simultaneamente crítico de um regime e integrar, direta ou indiretamente, os seus sectores estratégicos? Ou estaremos perante um caso de integração silenciosa no próprio sistema que antes se criticava?
Quem conhece o funcionamento de regimes de tendência autoritária sabe que raramente permitem que opositores genuínos ocupem posições relevantes em sectores-chave da economia nacional. O episódio envolvendo Marcolino Moco, afastado da Sonangol após críticas públicas ao Presidente João Lourenço, permanece como exemplo paradigmático de como o poder reage a vozes incómodas.
Muitos cidadãos relatam experiências semelhantes de bloqueio profissional por razões políticas. O próprio autor deste texto foi afastado da função pública em 2019 após exercer o seu direito à crítica. Esta realidade contrasta com democracias consolidadas, onde o exercício da opinião não constitui impedimento ao acesso ao emprego público, desde que cumpridos os requisitos técnicos.
Nos termos do artigo 76.º da Constituição da República de Angola, o direito ao trabalho é garantido a todos os cidadãos. Em teoria, ninguém está impedido de trabalhar na Sonangol, na Indiama, no Conselho Nacional de Carregadores ou na AGT. Contudo, a perceção amplamente difundida é de que o acesso a estas instituições continua condicionado por critérios de alinhamento político.
O MPLA tem sido acusado por diversos sectores da sociedade civil de instrumentalizar o aparelho do Estado para premiar lealdades e fragilizar economicamente quem considera perigoso. Segundo esta leitura crítica, uma das estratégias consistiria em bloquear oportunidades profissionais de cidadãos que se destaquem pela independência de pensamento.
É neste contexto que surge a pergunta inevitável: João Paulo Ganga quis, afinal, fazer parte do sistema? Ou as informações que circulam são falsas e exigem desmentido imediato?
Se exerce funções nas instituições referidas, que o diga. Se não exerce, que o esclareça. O que não pode persistir é o silêncio — sobretudo quando está em causa a coerência entre discurso e prática.
Num país que precisa urgentemente de fortalecer a confiança nas instituições e na palavra pública, a transparência não deve ser seletiva. O silêncio pode ser estratégia, mas também pode ser interpretado como concordância.
E, em política, as interpretações constroem reputações. Dito Dalí.