SAÚDE PUBLICA VIRA NEGOCIO: “LOTADORES DA SAÚDE” NO HOSPITAL GERAL DE LUANDA
É profundamente inquietante o cenário que hoje se vive no Hospital Geral de Luanda. Um espaço que deveria simbolizar cuidado, esperança e dignidade humana começa, gradualmente, a ser associado a práticas que levantam sérias questões éticas, sociais e institucionais.
Multiplicam-se relatos sobre a presença de jovens provenientes de clínicas e centros de saúde adjacentes, que permanecem no interior do hospital à espera de pacientes recém-atendidos. Assim que o médico prescreve exames complementares como raios X ou ecografias surgem, de imediato, indivíduos munidos de folhetos publicitários, encaminhando os doentes para serviços externos. A imagem é perturbadora, “corredores” hospitalares transformados em espaços de captação de clientes, como se a dor humana fosse apenas mais uma oportunidade de mercado.
Este fenómeno, que eu apelidei de “lotadores da saúde”, sugere algo ainda mais preocupante do que simples desorganização administrativa. Levanta-se a suspeita de conivência silenciosa, de fragilidade nos mecanismos de fiscalização e, sobretudo, de uma perigosa normalização da intermediação comercial dentro de uma unidade pública de saúde. Quando o paciente deixa de ser cidadão para passar a ser consumidor vulnerável, todo o sistema perde a sua razão de ser.
Impõe-se, por isso, uma pergunta directa às autoridades competentes:
o Hospital Geral de Luanda não dispõe de condições para realizar exames básicos?
Se dispõe, por que razão os doentes são sistematicamente encaminhados para estruturas privadas próximas?
Se não dispõe, como se justifica tal insuficiência num dos principais hospitais públicos da capital?
Qualquer uma das respostas é grave.
A primeira aponta para interesses económicos disfarçados.
A segunda revela falhas estruturais inaceitáveis num serviço essencial do Estado.
Entretanto, as consequências recaem sempre sobre os mais frágeis. Há denúncias de burla a pacientes, de cobranças indevidas e de exploração da angústia de quem procura apenas tratamento e alívio. A saúde, que deveria ser território de humanidade, corre o risco de se tornar território de lucro fácil.
Perante este quadro, torna-se inevitável um apelo à Senhora Ministra da Saúde, Sílvia Lutucuta, às entidades fiscalizadoras e à própria sociedade civil. Não se trata apenas de corrigir uma irregularidade administrativa, mas de defender a dignidade do doente angolano e restaurar a confiança num sistema que deve existir para servir, e não para explorar.
Ignorar sinais como estes é permitir que pequenas distorções se transformem em crises profundas. A história mostra que a degradação dos serviços públicos começa quase sempre com práticas aparentemente menores, toleradas pelo silêncio colectivo.