DEPOIS DE SERVIR O REGIME DO MPLA JORNALISTA PEDRO KAPAPA VÊ A SUA DIGNIDADE POSTA A NU
Eu não partilho a imagem da desgraça do colega. Não. O que RNA faz aos seus quadros magoa. O Octávio Capapa nem ninguém merece.
PROPAGANDA E A DIGNIDADE DESNUDADA
Há nomes que se inscrevem no imaginário de uma geração. Octávio Pedro Capapa é um deles. Comunicador brilhante, voz firme da maior estação de rádio, ajudou a construir a memória coletiva de um país em transição.
A sua fase de ouro foi marcada por talento e impacto, mas também por escolhas — ou imposições — que o empurraram para o terreno da propaganda.
Chamado por muitos de “Senhor Propaganda”, Capapa não foi apenas um quadro da comunicação; foi parte da engrenagem que sustentou narrativas de poder. O poder absorveu o seu talento, e depois o descartou. Hoje, debilitado pela doença e exposto à fragilidade da mendicidade, vê a sua dignidade posta a nu.
Eis o paradoxo que nos deve inquietar: como é possível que alguém que deu tanto de si em prol da manutenção de um sistema esteja agora abandonado, sem reconhecimento?
A resposta é dura: o poder não protege os seus servidores quando já não precisa deles. O talento, quando reduzido a instrumento, perde autonomia e, com ela, a salvaguarda.
Este caso não é apenas pessoal. É político, ético, coletivo. É um espelho da ingratidão institucional e da fragilidade da memória nacional.
A geração que cresceu ouvindo Angola combatente deve interrogar-se: que valor damos aos que moldaram o nosso imaginário? Que responsabilidade temos em preservar a dignidade dos que, mesmo alinhados com narrativas de poder, foram parte da nossa história?
Octávio Pedro Capapa não deve ser lembrado apenas como “Senhor Propaganda”. Deve ser reconhecido como comunicador, como voz que marcou uma época.
A sua situação atual é um alerta: quando a comunicação se torna apenas propaganda, o comunicador fica vulnerável. Mas quando a memória se transforma em solidariedade, há espaço para restaurar dignidade.
Texto de Rui Kandove