HOMEM QUE PERDEU A VISÃO APÓS SER ATINGIDO POR DISPAROS DE SEGURANÇAS DA EMPRESA CAPACETE CLAMA POR JUSTIÇA
Um jovem de 25 anos perdeu a visão nos dois olhos, semana depois de ter sido alegadamente espancado por supostos efectivos de segurança da empresa privada Capacete, que protege a empresa de exploração de diamantes Sociedade Mineira do Cuango (SMC), que opera no município Cassanje Calucala, província da Lunda-Norte.
Segundo a vítima, para recuperar da saúde, vendeu os seus bens incluindo a residência para recorrer aos hospitais de referência, mas como disse, “sem sucesso”, por isso, apelou à Provedoria da Justiça, à Procuradoria-Geral da República (PGR) e outras instituições do Estado, bem como direitos humanos, para que se faça a justiça e os presumíveis implicados sejam responsabilizados.
O facto aconteceu na manhã do dia 22 de Junho de 2025, quando uma viatura de efectivos de segurança Capacete, surpreenderam um grupo de garimpeiros que se encontravam em zona de exploração artesanal de diamantes, no bairro Ngonga-Ngola, actual município de Cassanje-Calucala, na Lunda-Norte.
Entre os integrantes do grupo esteve a vítima – Moisés Manuel Ambrósio, natural de Marimba, provincia de Malanje, que foi colocado sob custódia dos agentes de segurança, após terem efectuado vários disparos – um dos quais atingiu Moisés na cabeça – disparos feitos com a arma de fogo do tipo caçadeira.
“Após o crime, fui abandonado no meio de uma mata fechada sem qualquer assistência médica e medicamentosa. E quando escorria sangue, ainda vi um outro garimpeiro a ser atingido com um tiro no pé pela mesma segurança Capacete”, lembrou.
Moisés Ambrósio contou que, dada a situação recorreu a um posto de segurança para que devolvesse os 30 mil kwanzas pagos para que tivesse o acesso à área de exploração, cujos valores serviriam para o seu tratamento, mas segundo ele, “nada resultou, uma vez que os seguranças não aceitaram devolver o dinheiro”.
“Diante desta situação, fiz participação do caso às autoridades locais, e sobretudo à Polícia de Cassanje Calucala e de Cafunfo. Nenhuma das queixas teve pernas para andar nos órgãos de justiça, apesar de ter constituído um advogado”, lamentou.
Contou que, devido a gravidade da situação e por falta de valores monetários “teve que vender a minha casa e meus bens de primeira necessidade, recorri aos hospitais de Malanje, Luanda, Benguela e na República Democrática do Congo para um tratamento adequado, fui tratado, mas perdi a visão completa dos dois olhos”, referiu o cidadão com lágrimas nos olhos.
“Já não consigo ver nem a luz do sol que antes de acordar eu via no meu quarto. E os médicos que me assistiram, disseram-me que este caso ultrapassou o nível e não temos como recuperar a sua visão e isso te tornou cego permanente”, disse.
Cumplicidade das autoridades da Lunda-Norte
Para o activista Jordan Muacabinza, defensor dos direitos humanos, o excesso de crimes cometidos pelas empresas de segurança que protegem a Sociedade Mineira do Cuango, conta com alegada cumplicidade das autoridades da região por onde se extrai o mineiro, que segundo ele, têm protegido os crimes de torturas e assassinatos de civis nas minas de diamantes.
“Esse tipo de situação tem sido denunciado de forma consistente em diferentes contextos, onde a exploração de recursos naturais, especialmente diamantes, está ligada a violações graves de direitos humanos”, disse.
Em declarações ao Club-K, Muacabinza percebe que as autoridades locais ou nacionais têm, na sua visão, “participação directa ou indireta nos lucros de diamantes, por isso nota-se incentivos para encobrir abusos”, que para si, “violam a lei e ofendem os direitos humanos”.
“Como é possível, agentes de segurança detidos pelo crime cometido, serem colocados em liberdade quando há evidências do cometimento de tais delitos?”, questionou o activista, para quem “fortalece a cultura de violência persistente e intimidatória contra as comunidades indefesas”.
Jordan Mucabinza lamentou que, na maioria dos casos, “garimpeiros são sujeitos a sevícias e muitos morrem e são enterrados pelos Serviço de Investigação Criminal e efectivos de Protecção Civil e Bombeiros sem os familiares terem os visto”, acusou o activista, que apontou o caso de um garimpeiro supostamente foi enterrado na margem do Rio Cuango, bem como nas proximidades da Ponte Rio Tximango, no dia 17 de Março de 2026, no município de Cafunfo.
“Esses e outros casos, cometidos pelas empresas de altos poderosos angolanos, configuram crime contra humanidade”, afirmou.
O activista afiliado à Front Line Defenders (FLD), apelou os órgãos competentes do Governo e do Estado angolano no sentido de agirem “com urgência para pôr fim às práticas abusivas cometida pela empresas de segurança Capacete e Kadyapemba, nas minas de diamantes no município de Cassanje-Calucala no sentido de garantir que haja paz, justiça para as vítimas e seus familiares”. CK