GOVERNO ABANDONA PROJECTO DE SUBSTAÇÃO DE QUE CUSTOU 85 MILHÕES DE EURO NO CUANZA NORTE ENQUANTO A POPULAÇÃO DE SAMBA LUCALA VIVEM SEM ÁGUA POTÁVEL E ENERGIA ELÉCTRICA
Mais de seis mil habitantes da comuna de Samba Lucala, município de Samba Cajú, no Cuanza-Norte, continuam sem acesso à rede pública de energia eléctrica e a água potável, desde a existência do município, numa realidade que, segundo moradores e dirigentes políticos locais, se mantém desde a criação da circunscrição.
A situação foi denunciada esta semana pelo secretário provincial do PRA-JA Servir Angola no Cuanza-Norte, João Quipipa Dias, durante uma visita àquela localidade, realizada cerca de 40 anos depois da sua última passagem pela comuna.
Segundo o político, a população de Samba Lucala continua a recorrer a fontes de água imprópria para o consumo, apesar da existência de um centro de captação e tratamento de água construído com fundos públicos.

“Enquanto milhares de cidadãos continuam a consumir água imprópria aqui em Samba Lucala, um centro de captação e tratamento de água, construído com milhões de kwanzas dos cofres públicos, permanece abandonado e em estado avançado de degradação”, denunciou.
João Quipipa Dias considera difícil compreender que um investimento desta dimensão permaneça sem cumprir a finalidade para a qual foi construído, enquanto a população enfrenta diariamente dificuldades no acesso à água potável.
O responsável do PRA-JA Servir Angola defende que as autoridades devem apresentar respostas e soluções para a recuperação das infraestruturas existentes.
“A água é um direito fundamental, não um privilégio. O povo de Samba Lucala merece respostas, soluções concretas e a recuperação das infraestruturas que foram financiadas com o dinheiro de todos os angolanos”, afirmou.
PROBLEMA ESTENDE-SE A OUTRAS LOCALIDADES
A falta de acesso à água potável, segundo relatos recolhidos pelo Jornal Hora H, não se limita a Samba Lucala.
Em Lucala 2 e Lucala 3, no município de Cambambe, existem igualmente centros de captação e tratamento de água que, de acordo com moradores, se encontram sem funcionamento regular.
O mesmo cenário é apontado em Cassualala e Zenza do Itombe, no município de Massangano, bem como na comuna de Ndaji-ya-Menha, onde existem infraestruturas do sector de águas e saneamento junto ao rio Lucala.

Simão dos Santos, residente em Cambambe, afirmou que o problema afecta várias localidades do Cuanza-Norte.
Segundo o cidadão, foram investidos milhões de kwanzas na construção de centros de captação e tratamento de água destinados ao abastecimento das populações, mas muitas comunidades continuam a consumir água de fontes consideradas impróprias.
No município de Bolongongo, o cidadão Belengue Mucage relatou igualmente a existência de um centro de captação e tratamento de água construído e apetrechado junto ao rio Kuale, mas que se encontra actualmente abandonado.
UNITA APONTA FALTA DE SERVIÇOS BÁSICOS
A situação de Samba Lucala foi igualmente constatada durante uma actividade realizada pela UNITA na comuna, no âmbito das comemorações do 18 de Junho, data de fundação da LIMA — Liga da Mulher Angolana.
O partido afirma ter aproveitado a deslocação para transmitir à população a sua mensagem de alternância política para 2027 e, ao mesmo tempo, constatar as condições sociais da comunidade.
De acordo com a UNITA no Cuanza-Norte, a população enfrenta dificuldades de acesso, estradas de terra batida degradadas, falta de água potável e energia eléctrica, além de limitações no acesso à assistência médica e medicamentosa.
O partido defende que a alternância política constitui, na sua perspectiva, um caminho para uma Angola “mais justa, democrática e desenvolvida”.
ELECTRIFICAÇÃO DE SAMBA LUCALA PREVISTA NO PROJECTO DO EXECUTIVO
Entretanto, o Jornal Hora H apurou que a chegada da energia eléctrica à comuna de Samba Lucala está enquadrada num projecto de electrificação rural cuja execução deverá decorrer durante 36 meses.
O projecto prevê a construção de uma nova subestação na comuna, com capacidade de cerca de 50 megawatts, além da instalação de aproximadamente 270 quilómetros de redes de média e alta tensão.
O investimento anunciado está estimado em cerca de 85 milhões de euros, valor que deverá ser confirmado pelas entidades responsáveis pela execução do projecto.
No passado mês de Julho, o governador provincial do Cuanza-Norte, João Diogo Gaspar, lançou, naquela comuna, a primeira pedra do Projecto de Electrificação Rural, uma iniciativa que prevê beneficiar 87 povoações, com mais de seis mil ligações domiciliares, expansão da iluminação pública e reforço da distribuição de energia eléctrica na província.
O projecto abrange igualmente os sete novos municípios criados no âmbito da nova Divisão Político-Administrativa: Aldeia Nova, Caculo Cabaça, Cêrca, Luinga, Massangano, Tango e Terreiro.

Na ocasião, João Diogo Gaspar destacou que a expansão da rede eléctrica constitui um dos pilares para a transformação económica do Cuanza-Norte.
Segundo o governador, a electrificação rural deverá contribuir para o aumento da produção agrícola e industrial, transformação local dos produtos, dinamização do comércio e criação de novas oportunidades de investimento e emprego.
A expansão da energia eléctrica deverá ainda melhorar o funcionamento dos serviços públicos, particularmente nos sectores da saúde, educação e abastecimento de água.
Enquanto o projecto de electrificação aguarda pela sua execução, os habitantes de Samba Lucala continuam a enfrentar a ausência de energia eléctrica e dificuldades no acesso à água potável, aguardando por soluções que permitam melhorar as condições de vida da comunidade.