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JOÃO LOURENÇO TRANSMITE CONDOLÊNCIAS A CABO VERDE, MAS SILÊNCIO OFICIAL SOBRE JOVENS MORTOS NO CUBANGO LEVANTA QUESTIONAMENTOS

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O Presidente da República, João Lourenço, transmitiu uma mensagem de condolências ao povo cabo-verdiano pela morte de pelo menos 25 pessoas, maioritariamente crianças e adolescentes, num grave acidente rodoviário ocorrido na ilha do Fogo, em Cabo Verde.

Na mensagem dirigida ao Presidente cabo-verdiano, José Maria Neves, o Chefe de Estado angolano manifestou consternação pelo sucedido e apresentou solidariedade às famílias enlutadas, em nome do Executivo angolano e no seu próprio.

“Profundamente condoídos com o trágico acidente que vitimou 25 pessoas, de entre as quais um maior número de crianças, quero expressar ao Governo de Cabo Verde e a Vossa Excelência as nossas mais sentidas condolências”, lê-se na mensagem atribuída ao Presidente João Lourenço.

O acidente ocorreu no sábado, 05 de Setembro, quando um autocarro que transportava alunos saiu da estrada e caiu numa ravina com cerca de 30 metros, na zona de Campanas de Cima. As causas continuam sob investigação. Autoridades locais confirmaram pelo menos 25 mortos e vários feridos. RTP Notícias⁠.

Contudo, a manifestação de solidariedade internacional acontece num momento em que Angola também enfrenta uma tragédia envolvendo jovens que procuravam uma oportunidade de emprego no sector da Educação.

Na Estrada Nacional 140, província do Cubango, quatro candidatos ao concurso público da Educação morreram e mais de 24 pessoas ficaram feridas depois do despiste e capotamento de um camião que transportava gás e passageiros. Os jovens deslocavam-se ao município do Calai para participarem nos exames de acesso ao concurso público. Rádio Nacional de Angola⁠.

SOLIDARIEDADE EXTERNA E EXPECTATIVA INTERNA

Até ao fecho desta matéria, a nossa redacção não localizou, nos canais públicos consultados, uma nota oficial da Presidência da República ou do Executivo angolano especificamente dirigida às famílias dos quatro jovens mortos no Cubango. Essa constatação não significa que nenhuma diligência institucional tenha sido realizada, mas revela a ausência, até ao momento da publicação, de uma comunicação pública equivalente à enviada a Cabo Verde.

A comparação não pretende diminuir a dimensão da tragédia cabo-verdiana nem questionar a importância da solidariedade entre Estados. As 25 mortes registadas em Cabo Verde merecem respeito, luto e solidariedade internacional. A questão de interesse público é outra: as famílias angolanas atingidas pela tragédia no Cubango também não deveriam receber, com igual prontidão, uma manifestação pública de pesar e esclarecimentos das instituições competentes?

ALÉM DAS CONDOLÊNCIAS, O ACIDENTE LEVANTA QUESTÕES QUE PRECISAM DE RESPOSTAS:

* Em que condições os candidatos foram obrigados a deslocar-se até ao Calai?

* Existia algum transporte institucional destinado aos concorrentes?

* O camião estava legalmente autorizado e preparado para transportar passageiros?

* Que assistência está a ser prestada aos feridos e às famílias das vítimas?

* As autoridades abriram uma investigação para determinar responsabilidades?

* Poderiam os exames ter sido organizados de forma descentralizada, evitando deslocações tão arriscadas?

Não há, até agora, elementos públicos suficientes para responsabilizar criminal ou administrativamente qualquer instituição pelo acidente. Também não se deve concluir, sem investigação, que a falta de transporte fornecido pelo Estado foi a causa directa das mortes. Entretanto, as circunstâncias relatadas justificam uma apuração rigorosa sobre segurança rodoviária, condições de transporte e organização territorial do concurso.

O SILÊNCIO TAMBÉM EXIGE ESCLARECIMENTO

O Estado angolano agiu correctamente ao manifestar solidariedade a Cabo Verde. Porém, essa sensibilidade diplomática deve ser acompanhada de atenção pública semelhante quando cidadãos angolanos perdem a vida enquanto procuram acesso a uma oportunidade de emprego estatal.

As famílias precisam de apoio, os feridos necessitam de assistência adequada e a sociedade tem direito a informações claras. Mais do que estabelecer uma disputa entre tragédias, o momento exige coerência institucional: a dor que Angola reconhece além-fronteiras também deve ser reconhecida dentro do próprio território.

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