SENHOR MIALA, POR FAVOR, FAÇA CHEGAR ESTA MENSAGEM AO SENHOR PRESIDENTE DA REPÚBLICA, JOÃO LOURENÇO, SOBRE O 27 DE MAIO
Talvez estas palavras nunca cheguem directamente ao Senhor Presidente.
Mas há dores que o tempo não conseguiu apagar, nem o silêncio conseguiu enterrar.
O 27 de Maio deixou marcas profundas na memória colectiva dos angolanos.
Marcas de dor, separação, silêncio e sofrimento que durante décadas viveram escondidas dentro de muitas famílias angolanas.
Muitos pais partiram sem conseguir reencontrar os filhos.
Muitas mães envelheceram sem saber onde repousavam os restos mortais dos seus familiares.
Muitos filhos cresceram sem respostas, carregando no peito uma dor silenciosa que atravessou gerações.
Durante muitos anos, falar do 27 de Maio significava reviver o medo.
Muitas famílias aprenderam a sofrer em silêncio.
Aprenderam a guardar fotografias, memórias e histórias dentro de casa, longe dos olhares e das palavras.
E talvez essa tenha sido uma das feridas mais profundas deixadas por aquele período doloroso da nossa história.
Não foi só a perda de vidas humanas, foi também a perda do direito de chorar livremente os próprios familiares.
Foi o peso do silêncio dentro de milhares de lares angolanos.
Senhor Presidente, há momentos na vida de uma Nação em que a coragem se manifesta na capacidade de enfrentar o passado com verdade, responsabilidade e sentido de humanidade.
Por isso, muitos angolanos olham para este momento como um gesto de reconciliação moral e respeito pela memória das vítimas e das suas famílias.
Não se trata de política.
Não se trata de vencedores ou vencidos.
Trata-se da dignidade humana.
Trata-se da necessidade de sarar feridas que durante muitos anos permaneceram abertas na consciência nacional.
Hoje, mesmo tarde, muitas famílias sentem que a sua dor começou finalmente a ser reconhecida.
Nenhuma palavra poderá apagar o sofrimento vivido.
Nenhum gesto conseguirá devolver os anos perdidos.
Mas reconhecer a dor, preservar a memória e devolver dignidade às famílias representa também um importante passo para a reconciliação entre os angolanos.
Adeus ao silêncio do 27 de Maio.
E obrigado pela coragem, Senhor Presidente João Lourenço.
Porque uma Nação também se fortalece quando encontra coragem para reconciliar-se com a sua própria história.
Rui Ferreira, Coronel