E-mail para denúncia: correiodamanha18@gmail.com

A PRIMEIRA DERROTA DE JOÃO LOURENÇO – HORÁCIO DOS REIS

0

Há jogadas de xadrez que não se limitam a ameaçar o rei; reescrevem as regras do jogo enquanto as peças ainda estremecem no tabuleiro. O que o general Higino Carneiro, o “4×4″ para os íntimos da intriga, veterano da ceia onde se esvaíam os cofres públicos, fez na manhã da última quinta-feira, 25 de junho de 2026, aplicou o primeiro golpe: entrou na sede Nacional do MPLA não como um postulante, mas como um grão-mestre que acaba de descobrir que o adversário joga sem saber que as suas próprias torres mudaram de lealdade. As 19.324 assinaturas contra as 11.000 do presidente João Lourenço não são um triunfo aritmético. São o retrato de um rei que se julgava em maioria e acordou em minoria.

O regulamento exigia 5.000 firmas, mera formalidade para ungir o ungido. O presidente cessante, com toda a musculatura do aparelho a seu favor, apresentou 11.000, número que deveria esmagar qualquer veleidade. Mas o general devolveu 19.324. Mais oito mil. Quase o dobro. E aí reside o terramoto: aquelas assinaturas não são tinta sobre papel, são a voz escondida das bases que há dias desfilavam em passeatas de apoio a João Lourenço, erguendo cartazes e punhos que agora se revelam a encenação mais crua e despudorada da política angolana. Foi um desfile de falsos, uma procissão de Judas que juraram fidelidade ao chefe em praça pública e, na urna secreta da assinatura, lhe passaram o cartão vermelho.

O dilema que agora repousa sobre a mesa do MPLA é uma lâmina afiada que corta em qualquer direção. De um lado, a tentação burocrática: travar Higino na secretaria. Invalidar assinaturas, descobrir vícios de forma, invocar a liturgia dos estatutos para lhe fechar a porta do congresso. Seria a solução cirúrgica, o golpe de misericórdia administrativo. Mas esta faca tem um segundo fio que sangra o próprio regime. Porque excluir o general que apresentou quase o dobro das assinaturas do presidente é confessar ao país e ao mundo que o MPLA tem medo dos seus próprios militantes. É decretar que a democracia interna é uma farsa, que as regras valem enquanto não ameaçam o poder, que o partido prefere um reinado formal a uma alma combativa. A imagem externa desmorona-se, e a interna envenena-se com o fel dos que assinaram e se sentem traídos.

Do outro lado do gume, a ousadia: deixar Higino passar. Validar as 19.324 assinaturas e deixar que o congresso decida. Mas aqui o corte é ainda mais profundo e doloroso, porque obriga o MPLA a canonizar o pecador. Higino Carneiro não é um dissidente virginal, um puritano que emerge das catacumbas para regenerar o partido. É um general que se sentou à mesa farta do poder, que participou do banquete onde os cofres públicos eram servidos como iguaria, que conhece cada cicatriz do sistema porque ajudou a abrir algumas delas. Deixá-lo subir ao púlpito do congresso é santificar quem pecou, ungir o saqueador com o óleo da legitimidade, transformar o cúmplice de ontem no salvador de amanhã. Uma operação teologicamente impossível, politicamente explosiva, mas que o número, 19.324, tornou tragicamente possível.

Há um outro detalhe que ilumina a proeza com a luz crua da intriga: Higino está rodeado por quadros vindos do topo do SINSE, o serviço secreto angolano. E um homem da secreta, reza a sabedoria das esquinas de Luanda, é secreta para sempre. Conhece os canais que não aparecem nos organogramas, as lealdades que não se declaram, os silêncios que valem mais do que mil palavras. Foi nesse mapa invisível do poder que o general navegou para recolher 19.324 assinaturas em 21 províncias sem que a máquina de João Lourenço, que tudo vê, tudo controla, tudo compra, conseguisse antecipar, travar ou sequer contar os corpos. O presidente julgava que os CAPs eram extensões da sua vontade, terminais nervosos de um corpo político que lhe obedecia por instinto. As 19.324 firmas são a prova de que esses terminais mentem, que os primeiros secretários provinciais e municipais relatam ao chefe o que ele quer ouvir e, mal viram as costas, abrem as portas ao adversário.

Há uma lição de Maquiavel que João Lourenço parece ter esquecido: o príncipe deve ser amado e temido, mas se tiver de escolher, que escolha o temor, porque o amor é volúvel e o temor é constante. O que as 19.324 assinaturas revelam é que o presidente já não inspira nem uma coisa nem outra. As bases não o temem o suficiente para recusar assinar por outro, nem o amam o suficiente para lhe serem leais quando a caneta encontra o papel. O desfile de falsos das últimas semanas, as passeatas, os comícios encenados, os punhos erguidos, foi a tentativa desesperada de simular um amor que já não existe, uma coreografia para esconder que o rei perdeu a autoridade sobre os seus súbditos.

A faca está na mesa. De dois gumes. Afiada. E quem a segura já não sabe se corta o adversário ou a própria mão.

POR: HORÁCIO DOS REIS | JORNALISTA

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *