AMBRÓSIO LUKOKI “NZAKIMWENA”: DO PROFESSOR AO NACIONALISTA, GOVERNANTE E DIPLOMATA ANGOLANO
Ambrósio Lukoki, conhecido durante a luta nacionalista pelo nome de “Nzakimwena”, nasceu a 7 de Dezembro de 1940, na região de Quibocolo, município de Maquela do Zombo, província do Uíge. Filho de Alves Lucau Garcia e Teresa Luvambu, cresceu num ambiente familiar em que a educação e a religião tiveram particular importância. Segundo memórias familiares posteriormente reunidas sobre a sua vida, a mãe era cristã protestante baptista e teria escolhido o nome Ambrósio em referência a Santo Ambrósio, cuja memória é celebrada a 7 de Dezembro.
A sua juventude decorreu, em parte, fora de Angola. Ainda jovem seguiu para Kinshasa, então no Congo Belga, onde frequentou o ensino primário e secundário em instituições ligadas ao Armée du Salut — o Exército de Salvação. Foi naquele ambiente que se formou intelectualmente e começou a aproximar-se das questões políticas relacionadas com Angola.
As memórias biográficas da família descrevem-no como um aluno disciplinado, responsável e frequentemente escolhido para representar os colegas. Essa inclinação para a educação acabaria por marcar profundamente toda a sua trajectória: antes de ser ministro, diplomata ou dirigente político, Ambrósio Lukoki foi professor.
Da educação ao nacionalismo angolano
No início da década de 1960, quando a luta anticolonial angolana entrava numa nova fase, Lukoki aproximou-se da actividade nacionalista. Em 1961, envolveu-se na UNTA, organização sindical ligada ao MPLA no exílio, convivendo com outros nacionalistas angolanos estabelecidos no Congo.
Paralelamente, prosseguiu a sua formação profissional. Em Junho de 1962, concluiu a preparação para o exercício da docência. Chegou a obter uma bolsa para estudar na Polónia, mas, segundo a narrativa familiar, o pai não autorizou inicialmente a viagem. Lukoki permaneceu em Kinshasa, onde trabalhou como professor numa escola primária.
A oportunidade de realizar estudos superiores no estrangeiro surgiu novamente em 1963, quando conseguiu uma bolsa para a então Jugoslávia. Na Universidade de Belgrado estudou Pedagogia, com especialização em Andragogia, área dedicada à educação e aprendizagem de adultos. Permaneceu em formação entre 1963 e 1969 e exerceu também funções de coordenação entre estudantes angolanos.
Esta combinação entre educação, alfabetização e nacionalismo tornou-se uma característica importante da sua vida pública.
Professor no interior da luta de libertação
Em 1969, Lukoki regressou ao contexto da luta angolana e passou a trabalhar na 3.ª Região Político-Militar do MPLA, na Frente Leste. Assumiu responsabilidades no Departamento de Educação, Cultura e Desportos e dirigiu o Centro Escolar Augusto Ngangula, no Moxico, ligado à formação dos pioneiros do movimento.
A educação surgia, naquele contexto, não apenas como transmissão de conhecimentos, mas como parte do projecto político de formação de quadros e alfabetização das populações nas zonas onde o movimento actuava.
A partir de 1972, a sua actividade ganhou também uma dimensão internacional. Representou o MPLA no Egipto, no Médio Oriente, junto da Organização de Solidariedade dos Povos Afro-Asiáticos, na Tanzânia e na África Oriental. Com a aproximação da independência, participou igualmente na organização e mobilização política do MPLA em Saurimo, na actual Lunda Sul.
A sua ascensão dentro do movimento levou-o ao Comité Central do MPLA e, depois da independência, ao Bureau Político e a responsabilidades na esfera ideológica.
Governador, ministro e dirigente do novo Estado
Com a independência de Angola, em 11 de Novembro de 1975, Ambrósio Lukoki passou da luta nacionalista para a construção das instituições do novo Estado.
Entre 1976 e 1977, exerceu funções de Comissário Provincial do Uíge, cargo equivalente, naquele período, ao de governador provincial.
Em 1977, foi nomeado Ministro da Educação, permanecendo no cargo até 1980. A sua passagem pelo sector coincidiu com os primeiros anos de reorganização do sistema educativo de Angola independente, período marcado pela necessidade de expandir a alfabetização, formar professores e criar instituições de ensino para uma população que saía de séculos de domínio colonial.
As fontes biográficas fornecidas pela família atribuem-lhe participação nos trabalhos relacionados com a política nacional de educação e com a criação, em 1980, de estruturas de formação superior de professores, incluindo o ISCED.
Entre 1980 e 1982, passou a exercer funções ministeriais na área da Ideologia, Informação e Cultura. Também desempenhou responsabilidades no Bureau Político do MPLA ligadas à informação, propaganda e esfera ideológica. A DW confirma que Lukoki ocupou os ministérios da Educação e posteriormente da Informação e Cultura, além de ter sido secretário do Bureau Político para Informação e Propaganda.
A sua importância naquele período é igualmente ilustrada pela sua presença na alta estrutura política angolana durante a transição ocorrida após a morte do Presidente Agostinho Neto, em Setembro de 1979.
O regresso à educação
A carreira de Lukoki não permaneceu exclusivamente ligada ao aparelho governamental. Durante a década de 1980 regressou àquilo que tinha sido uma das suas primeiras vocações: o ensino.
Exerceu docência universitária no ISCED do Lubango e, posteriormente, retomou os estudos superiores. Entre finais da década de 1980 e início da década de 1990 esteve ligado à Universidade de Montreal, no Canadá, onde aprofundou estudos na área da psicopedagogia e da andragogia, tendo obtido formação pós-graduada.
Depois do regresso a Angola, em 1992, voltou à docência universitária e à actividade política.
Entre 1996 e 2001, assumiu funções de Director-Geral do Bureau Africano das Ciências da Educação, ligado à então Organização da Unidade Africana (OUA). Era uma função que reunia duas dimensões que acompanharam praticamente toda a sua vida: a educação e a cooperação africana.
Da educação à diplomacia
Nos primeiros anos do século XXI, Lukoki iniciou outra importante etapa da sua carreira pública: a diplomacia.
Representou Angola como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário em França e, posteriormente, na República Unida da Tanzânia. Esta última missão possuía um significado histórico particular, pois a Tanzânia tinha desempenhado um papel relevante no apoio aos movimentos de libertação da África Austral, incluindo o nacionalismo angolano.
A missão diplomática na Tanzânia prolongou-se pelos últimos anos da sua vida. Quando morreu, em 2018, a imprensa ainda o identificava como antigo embaixador de Angola naquele país.
A voz crítica dentro do MPLA
Nos últimos anos da sua vida, Ambrósio Lukoki tornou-se conhecido também pela crítica pública à governação de José Eduardo dos Santos, apesar da sua longa trajectória dentro do próprio MPLA.
Esta dimensão deve ser compreendida com alguma precisão histórica: não se tratava de um dirigente proveniente da oposição a criticar o MPLA, mas de um homem que tinha participado durante décadas nas estruturas do movimento e do Estado.
Em 2016, Lukoki pediu que o seu nome fosse retirado da lista de candidatos ao Comité Central do MPLA. No ano seguinte, já durante a transição presidencial, intensificou publicamente as suas críticas ao legado político de José Eduardo dos Santos.
Em Novembro de 2017, numa conferência de imprensa em Luanda, defendeu que o MPLA deveria romper com aquilo que denominava “José Eduardismo”. A expressão era utilizada pelo próprio Lukoki para caracterizar criticamente o sistema político desenvolvido durante a longa presidência de José Eduardo dos Santos. Também acusou o antigo Presidente de corrupção, nepotismo e de não ter solucionado a crise económica que afectava Angola. Estas eram acusações e avaliações políticas de Lukoki, não conclusões independentes desta narrativa. A DW registou essas declarações e a sua crescente posição crítica nos últimos anos da presidência de José Eduardo dos Santos.
Esta postura ajuda a compreender uma característica frequentemente atribuída a Lukoki por familiares, antigos companheiros e instituições angolanas: a frontalidade. Mesmo permanecendo historicamente ligado ao MPLA, não deixou de manifestar publicamente divergências sobre os caminhos seguidos pela liderança do seu próprio partido.
Morte e memória
Ambrósio Lukoki morreu em Luanda, a 1 de Outubro de 2018, vítima de doença prolongada, poucos meses antes de completar 78 anos. A sua morte foi noticiada pela imprensa angolana e internacional, que recordou a sua trajectória como histórico militante do MPLA, antigo ministro e diplomata.
Segundo os elementos biográficos preservados pela família, o seu corpo foi levado para a terra natal, onde foi sepultado. Deixou esposa e cinco filhos.
Depois da sua morte, recebeu condecorações a título póstumo, e diferentes instituições e personalidades angolanas evocaram a sua participação na luta de libertação, na educação, na política e na diplomacia. Esses testemunhos devem ser entendidos como avaliações memorialísticas dos seus contemporâneos e das instituições a que esteve ligado.
A vida de Ambrósio Lukoki “Nzakimwena” atravessou várias fases fundamentais da história contemporânea de Angola: a experiência do exílio, a formação de nacionalistas angolanos no estrangeiro, a luta anticolonial, a educação nas zonas de guerrilha, a independência, a construção do novo sistema educativo, as estruturas dirigentes do MPLA, a docência universitária, a cooperação africana e a diplomacia.
Talvez seja precisamente esta diversidade que melhor permita compreender a sua trajectória. Antes e depois de ocupar os grandes cargos políticos, Lukoki permaneceu profundamente ligado à educação. Foi professor no exílio, responsável pela educação durante a luta de libertação, Ministro da Educação, docente universitário e dirigente africano no domínio das Ciências da Educação.
Nos últimos anos, acrescentou ainda outra dimensão ao seu legado: a disposição de criticar publicamente aspectos da governação do partido ao qual dedicara grande parte da vida. Por isso, a história de Ambrósio Lukoki não se resume à de um dirigente do MPLA. É também a trajectória de um professor que entrou no nacionalismo, de um nacionalista que participou na construção do Estado e de um antigo dirigente que, no final da vida, reivindicou o direito de discordar publicamente da liderança do seu próprio partido.
Fontes: elogio fúnebre de Ambrósio Lukoki, lido no seu funeral em 6 de Outubro de 2018, conforme compilação reproduzida pelo Wizi-Congo; Jornal de Angola, “Morreu o histórico Ambrósio Lukoki”, 2 de Outubro de 2018; e Deutsche Welle.
Perfeito Massamba