LIVRO VIDAS, MORTES DE ABEL CHIVUKUVUKU E A ORIENTAÇÃO DE JONAS SAVIMBI
Chegado à Jamba, fiquei mais ou menos um mês a trabalhar na Operação Cabinda, juntamente com o presidente Savimbi recorda Abel. Ao fim desse tempo, o velho Jonas disse-me que era altura de regressar a Kinshasa: «Vem aí um avião para te levar a Kinshasa. Não está muito bom, mas terás de voltar nesse.
Olhei-o, horrorizado: Eu, que já caí, metem-me de novo num avião, e ainda por cima num avião que não está bom?
Em 1985, Abel Chivukuvuku sobrevive a um segundo acidente aéreo.
Tínhamos de voar para o Licua, com o general Dembo. O avião tentou descolar, mas os pilotos detetaram uma avaria e decidiram regressar ao hangar. O mais sensato teria sido desistir da viagem, até se apurar com precisão o estado do aparelho. Na opinião dos técnicos, contudo, a avaria era pequena e poderia ser reparada em poucos minutos.
Aguardámos ali mesmo, no aeroporto, enquanto eles trabalhavam. Quando acharam que estava tudo bem, subimos outra vez para o avião. Fez-se a descolagem, o avião ergueu-se uns cem metros, alguma coisa falhou e caímos desamparados sobre o casario.
Uma confusão. Nenhum de nós se feriu com gravidade e, felizmente, as casas atingidas estavam vazias. A partir dessa data, Abel Chivukuvuku nunca mais aceitou viajar de avião com a mulher e os filhos. Abel seguia num primeiro voo, com um dos filhos; Maria Victória viajava num segundo, com o outro filho.
Regressado a Kinshasa, Abel continua a trabalhar na Operação Cabinda. Cria uma suposta congregação religiosa católica, dirigida por Ruth Beatriz Jamba, mãe do filósofo Almerindo Jaka Jamba e do escritor José Sousa Jamba. Todas as senhoras e moças ligadas ao movimento do Galo Negro são convidadas a integrar a nova congregação, incluindo Maria Victória, então namorada e futura esposa de Abel.
Numa das vivendas compradas pela UNITA em Kinshasa passa a funcionar uma oficina dedicada à produção de todo o tipo de documentos falsos, desde passaportes a diplomas académicos.
A oficina, operada por legítimos burocratas do governo zairense, muito bem pagos pelos rebeldes angolanos, recorria a papelada e carimbos igualmente legítimos, o que conferia absoluta autenticidade aos documentos ali produzidos. Não obstante a envergadura da operação, as autoridades zairenses nunca desconfiaram de nada.
Durante aqueles anos, Abel consegue convencer muitos militantes da FLEC a juntarem-se à UNITA, entre eles Luís Mambo Café, irmão de Maria Mambo Café (Tchynia), uma das fundadoras da Organização da Mulher Angolana (OMA), tendo ocupado altos cargos no governo angolano, até se transformar numa próspera empresária, a partir do ano 2000, vindo a ser uma das pessoas mais ricas do país.
Luís Mambo Café chegou a alcançar o posto de capitão nas fileiras das FALA. Mais tarde, retornou à FLEC.
O armamento trazido da Jamba ou do Licua era guardado em enormes bunkers, nas luxuosas vivendas que a UNITA comprara em Kinshasa.
Sempre que viesse um avião da Jamba ou do Licua para Kinshasa, assim que aterrasse, tinha de passar pela inspeção dos serviços de segurança zairenses recorda Abel.
Nesse dia, eu convidava os responsáveis dos serviços secretos para um almoço: Vamos primeiro almoçar, a inspeção fica para mais tarde, dizia-lhes. E, enquanto almoçávamos, vai uma cerveja, vai outra, vai uma terceira e uma quarta, os nossos camiões iam descarregando o armamento.
Mal recebesse a informação de que os camiões estavam carregados, eu entregava dez mil dólares a cada um dos agentes. Só então íamos todos juntos fazer a inspeção.
Nessa altura, é claro, não havia mais nada no avião, para além de mantimentos e de outros objetos sem importância.
Todo o armamento era depois transportado, nos fundos falsos dos camiões, para os armazéns que a UNITA adquirira ao longo da fronteira com Angola.
Sobre os fundos falsos, colocavam-se sacos com sal, açúcar, feijão, peixe ou fruta. Nos postos de controlo, bastava entregar um saco de mercadoria aos polícias, e a viagem continuava.
Os camiões chegavam, noite fechada, às casas da Muanda. Os guerrilheiros descarregavam a mercadoria, tiravam todo o taipal e, finalmente, retiravam as armas, que eram escondidas nos bunkers.
A última fase da operação consistia em transferir os comandos da Jamba para Kinshasa e, dali, para as florestas de Cabinda.
Os guerrilheiros foram chegando em pequenos grupos e alojados em camaratas secretas, nas belas vivendas do Bairro de Binza. Nunca saíam para a rua.
À chegada, todos eles recebiam documentos falsos bilhetes de identidade, registos escolares, cartas do coro da igreja, entre outros.
A UNITA chegou a ter quase trezentos comandos na capital zairense, distribuídos por diferentes casas.
Jonas Savimbi estava tão preocupado com a fase final da operação que enviou Tito Chingunji para a supervisionar.
A congregação religiosa, chefiada por Ruth Jamba, tratou de obter todas as autorizações necessárias para um retiro na vila da Muanda, na foz do rio Congo, em frente à cidade angolana do Soyo, antiga Santo António do Zaire.
No dia aprazado, de manhã muito cedo, lá foram as madres e as noviças, incluindo Maria Victória, com os comandos disfarçados de coristas, distribuídos por vários camiões.
Abel Chivukuvuku viaja de jipe, umas vezes ultrapassando a coluna, outras deixando-se ficar para trás, como se não tivesse ligação alguma com a mesma.
Em Boma, a antiga capital do Estado Livre do Congo, que foi propriedade privada de Leopoldo II da Bélgica e cenário de terríveis atrocidades, acontece um percalço.
No controlo militar, a tropa zairense pede que o grupo dê boleia a cinco soldados. Disfarçadamente, evitando ser vista, Dona Ruth sai do camião em que seguia e vai ter com Abel, pedindo-lhe instruções.
Levem os soldados diz Abel. Prossigam com naturalidade, falem em lingala entre vocês e cantem os vossos cânticos.
À cautela, e porque naquela época, no Zaire, tudo se comprava e vendia, incluindo o silêncio, Abel entrega algum dinheiro a Dona Ruth, para que esta o distribua pelos soldados.
Estes chegam ao seu destino, um pouco antes de Muanda, sem fazerem perguntas nem levantarem questões.
Mal os camiões se detêm junto às casas do movimento, na Muanda, já de noite, os jovens comandos correm a equipar-se.
Colocam as mochilas às costas, carregam RPG-7, outros lança-morteiros e demais material de guerra, e rapidamente se infiltram na mata, a caminho de Cabinda.
O grupo ficou às ordens dos oficiais da FLEC que a UNITA recrutara, criando depois as suas próprias bases.
Jonas Savimbi enviou mais duas equipas, vindas da Jamba, para controlar a operação. Uma delas era liderada por Miguel N’Zau Puna, que entrou no Zaire com um passaporte falso, que o dava como professor universitário.
Ambos teceram grandes elogios a Abel Chivukuvuku e à forma como arquitetara e concretizara toda a operação.
A 3 de maio de 1986, Abel casa-se com a namorada de há longos anos, Maria Victória, durante a visita de Miguel N’Zau Puna.
Abel conheceu as irmãs mais velhas da esposa na cidade do Huambo, nos últimos anos da época colonial, porque uma delas namorava com o empresário dos Cadência 7, Mestre Videira.
Em 1976, as irmãs fogem para a Zâmbia. Mais tarde, Maria Victória muda-se para Kinshasa, acompanhando as irmãs e várias outras famílias, de entre as quais a mãe de Jonas Savimbi, a avó Mbundu.
É lá que Abel a reencontra, e começam a namorar.
Até ao próximo capítulo