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A PARADOXAL ECONOMIA DA CHUVA: MECANIZAÇÃO AGRÍCOLA COMO CONDIÇÃO SINE QUA NON PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DO UÍGE

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Este artigo de opinião de natureza reflexivo-académica problematiza a relação entre a abundância pluviométrica da província do Uíge e a sua persistente insegurança alimentar e subdesenvolvimento agrário.

Defende-se a tese de que o modelo de agricultura de subsistência, assente na tracção humana, é incompatível com o desenvolvimento, e que a mecanização agrícola surge não como opção, mas como imperativo categórico para a transformação estrutural da economia Uigense.

Palavras-chave: Uíge, Mecanização Agrícola, Desenvolvimento, Chuvas, Agricultura Familiar.

O Uíge constitui um caso clássico de “paradoxo da abundância” na literatura do desenvolvimento. Detentora de um dos maiores índices pluviométricos de Angola – com média anual entre 1.400mm a 1.800mm –, de solos ferralíticos predominantemente férteis e de uma densidade populacional eminentemente rural, a província continua, todavia, a figurar entre as mais pobres do país, com uma agricultura incapaz de garantir sequer a sua própria segurança alimentar. Por que chove riqueza e colhe-se pobreza?

2. A Falácia da Enxada como Cultura

O discurso oficial pós-independência romantizou a enxada como instrumento de resistência cultural. Do ponto de vista sociológico, tal romantização foi um erro estratégico. Como nos ensina Celso Furtado, não há desenvolvimento sem salto de produtividade. A enxada tem produtividade marginal decrescente. O camponês do Uíge trabalha 10 horas por dia para produzir para 10 dias. É uma economia de tempo estático.

A mecanização não é inimiga do camponês. É a sua libertação. Na perspectiva de Amartya Sen, desenvolvimento é liberdade. E não há liberdade quando o homem é escravo da sua própria ferramenta arcaica.

3. Chuva sem Retenção é Erosão, não é Desenvolvimento

Do ponto de vista agronómico e hidrológico, a chuva no Uíge é hoje um passivo ambiental. Sem sistemas de retenção, sem agricultura de conservação, sem terraceamento mecanizado e sem silos de armazenamento, cerca de 70% da água pluvial perde-se por escoamento superficial, provocando erosão, destruição de vias terciárias e assoreamento dos rios. Chove, mas não irrigamos na época seca. Produzimos apenas uma época, quando podíamos produzir duas.

A mecanização permitiria: a) preparo do solo em larga escala no tempo certo; b) implementação de regadios de pequena e média dimensão; c) colheita e conservação mecanizada, reduzindo as perdas pós-colheita que no Uíge chegam a 40% na mandioca e banana.

4. Proposta: Um Novo Pacto Tecnológico para o Uíge

O desenvolvimento do Uíge não virá de mais enxadas distribuídas. Virá de um programa provincial estruturado em três eixos:

a) Centros Municipais de Mecanização Partilhada: Cada município deve ter um parque de máquinas (tratores, grades, semeadoras) gerido em modelo cooperativo, não oferecido, mas alugado a preço simbólico.

b) Industrialização Rural Leve: Transformar o Uíge de produtor de matéria-prima bruta em produtor de derivados: farinha de mandioca embalada, óleo de ginguba, café torrado. Isso exige energia e máquinas.

c) Crédito Agrícola Mecanizado: Substituir o crédito de sementes pelo crédito de horas-máquina e de motobombas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Uíge não é pobre por falta de chuva. É pobre por falta de coragem de abandonar a enxada como ideologia. Enquanto a chuva continuar a ser vista como dádiva divina e não como factor de produção que precisa de capital e tecnologia, continuaremos a fazer o mesmo ritual: culpar a estiagem quando falta e culpar o excesso quando chove demais.

A natureza já fez a sua parte. Cabe agora à academia, ao governo e à sociedade civil Uigense fazerem a transição mais difícil: a transição mental. Da enxada para a máquina. Da subsistência para o excedente. Da queixa para o desenvolvimento.

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