GOVERNO SEM VERGONHA NO UÍGE: COM POMPA E CHAMPANHE, CORTAM FITA PARA ENTREGAR… LATRINA
Enquanto o esgoto da ala de cólera corre a céu aberto no portão do Hospital Provincial, Executivo celebra entrega de buracos com porta de madeira no Ana Kandande. Até onde chegamos, Uíge?
É oficial. O Governo do Uíge perdeu completamente a noção do ridículo e a vergonha na cara.
Numa província onde o Hospital Provincial está com o esgoto da tenda de cólera a rebentar na rua, onde as estradas estão esburacadas, onde falta água potável e medicamento, o grande feito do dia, a grande obra que mereceu corte de fita, tenda, autoridades tradicionais, Polícia Nacional e até champanhe, foi o quê?
A entrega de uma latrina.
Não é meme. É facto. As imagens não mentem.
Nesta quinta-feira, 15 de Outubro de 2026, a EASU-EP e a Administração Municipal do Uíge juntaram todo o aparelho de Estado para entregar 265 latrinas melhoradas na zona 2 do bairro Ana Kandande. Projecto de 1.149 latrinas, dizem eles.
E como foi a cerimónia? Vejam a foto 1 que tivemos acesso: Um senhor de camisa azul, com o símbolo do partido no braço, a cortar fita vermelha com tesoura, como se estivesse a inaugurar uma auto-estrada. Ao lado, uma senhora com tabuleiro e garrafa de espumante. Atrás, polícias perfilados, administradores de braços cruzados. Tudo para um cubículo de bloco com 2 metros quadrados.
Na foto 2 e 3: o interior da grande obra. Um buraco no chão com sanita turca de 3 mil kwanzas, um balde branco de 20 litros em cima de ferros de construção para lavar as mãos e um balde vermelho no chão.
Na foto 4: a cereja no topo do bolo da humilhação. Um beneficiário, um cidadão idoso, humilde, a levantar a chave da latrina como se tivesse ganho uma casa no centralidade. Sorri porque precisa. Mas nós choramos por ele.
Pergunta que não se cala: Até onde chegamos?
Desde quando entregar latrina é obra de governo? Latrina é obrigação mínima de saneamento básico, é o zero. Governo não tem que fazer festa para entregar latrina. Tem que entregar em silêncio e ter vergonha porque em 2026, no século XXI, ainda há 90% da população do Uíge a cagar no capim.
Isso não é melhoria do saneamento. Isso é a confissão pública da falência. Estão a nos dizer, com fita e champanhe, que o melhor que conseguem nos dar é um buraco para não cagarmos na rua.
E o administrador Pedro André Makengo ainda teve a coragem de dizer para “conservar a infra-estrutura com vista à durabilidade”. Durabilidade de quê? De um buraco?
Enquanto cortam fita para latrina no Ana Kandande, a 5 minutos dali, no Hospital Provincial, o esgoto com fezes de doentes de cólera corre a céu aberto no portão principal, como os Caminhos Fiotes mostrou hoje mesmo em vídeo exclusivo. Lá, onde precisava de saneamento a sério, há esgoto na rua. Aqui, onde fazem propaganda, há champanhe para inaugurar sanita.
Isso é gozar com a cara do povo do Uíge.
Nós não vamos aceitar essa humilhação calados. Essa entrega de latrinas com festa é uma ofensa a todos os filhos do Uíge que pagam impostos.
Por isso, o Mostrando Caminhos Fiotes, anuncia:
Na próxima semana, a nossa equipa vai entrar in loco na zona 2 do bairro Ana Kandande. Vamos bater porta a porta nas 265 latrinas entregues. Vamos ver:
1. Se as latrinas têm água ligada ou se é o balde que vimos na foto.
2. Se têm fossa séptica ou se é só um buraco que vai encher na primeira chuva e voltar a espalhar cólera.
3. Quanto custou cada latrina ao Estado. Quem foi a empresa empreiteira. Quanto facturou.
4. E vamos falar com os beneficiários: Estão felizes com latrina ou queriam água, luz, escola e hospital?
O povo do Uíge não precisa de latrina com corte de fita. Precisa de dignidade.
Governo do Uíge, tenham vergonha. Tirem o champanhe da mesa e vão tapar o esgoto do Hospital Provincial que está a matar o vosso povo.