O MONUMENTO DA HIPOCRISIA – OLAVO CASTIGO
Ontem inauguraram o Monumento da Reconciliação. Bonito, de mármore, com luzes amarelas e tapete vermelho. Hoje pergunto com a frieza de que reconciliação é essa?
Vamos desmontar a estátua com 3 perguntas que a TPA não fez.
1. Que reconciliação é essa, se o próprio José Eduardo dos Santos veio do além como bagagem?
O homem que governou Angola 38 anos, que deu a independência ao MPLA como máquina de poder, morreu em Barcelona. Para voltar à terra que ele governou, o seu corpo não veio em avião presidencial com honras de Estado.
Veio num porão, despachado como carga, num processo judicial que mais pareceu disputa de encomenda nos Correios do que funeral de um Chefe de Estado. A família a brigar com o Estado em tribunal espanhol.
Reconciliaram-se com o bronze dele no monumento, mas não se reconciliaram com o corpo dele no caixão. Isso é reconciliação ou é necrofilia política?
Abraçam a estátua porque a estátua não fala, não tem filhos que processam, não tem fortuna que se disputa. Se a reconciliação não foi capaz nem de enterrar condignamente o seu próprio líder histórico, que reconciliação vai enterrar o ódio entre nós, os vivos do Cuilo-Futa?
2. Que reconciliação é essa, se o próprio MPLA está irreconciliado por dentro?
Inauguram reconciliação nacional com o partido no poder em guerra civil fria. O camarada Higino Carneiro, um histórico, um general, é tratado publicamente como “cão tinhoso” dentro do próprio Comité Central. É isolado, humilhado, empurrado para a porta de saída, porque ousou pensar diferente. O MPLA não consegue reconciliar-se com o Higino, mas quer ensinar o país a reconciliar-se.
É o que Sigmund Freud chamava de “narcisismo das pequenas diferenças”: quanto mais iguais são, mais se odeiam. Que moral tem um partido que não se reconcilia com as suas próprias entranhas para inaugurar um monumento para o país todo? Primeiro reconciliem a ala dos “marimbondos” com a ala dos “turbinados”. Depois falem de nação.
3. Que reconciliação é essa, se Adalberto Costa Júnior é combatido até à exaustão?
A terceira mentira do monumento é a mais visível. No bronze, puseram um soldado do MPLA abraçado a um da UNITA. Na vida real, o líder da UNITA, Adalberto Costa Júnior, é combatido 24 horas por dia até à exaustão física e jurídica. Processos atrás de processos, tentativa de destituição no Tribunal Constitucional, insultos na TV pública, chamado de estrangeiro na terra onde nasceu.
Como é que o bronze se abraça e o homem não se cumprimenta? A estátua da reconciliação tem um UNITA de pedra, mas o UNITA de carne e osso, que tem 44% dos votos do país, é tratado como inimigo do Estado. Isso não é reconciliação, é ventriloquia. Põem um boneco mudo a representar o adversário, porque o adversário vivo incomoda, fala, ganha votos e exige autarquias.
No meu município, para ser director de uma escola debaixo de uma árvore, precisas de cartão de militante do MPLA. Se não tens, o administrador diz: “Este não é nosso”. Não é angolano? Não é professor? É “não é nosso”.
O que inauguraram ontem não foi o Monumento da Reconciliação Nacional.
Foi o Monumento da Reconciliação Seletiva.
Reconciliam-se com o morto que não reclama como bagagem, mas não com o vivo que reclama por justiça. Reconciliam-se com o bronze do adversário, mas combatem o adversário de carne até cair.
Reconciliam-se entre si no tapete vermelho de Luanda, mas dividem o país em “nossos” e “não nossos” na escola debaixo da árvore no Cuilo-Futa.
Enquanto um professor for “não nosso” por não ter cartão, todo monumento será apenas isso: um túmulo caro, muito bem iluminado, para o inglês ver, enquanto a nação continua por reconciliar.